A OpenAI, criadora do ChatGPT, foi avisada por seus próprios funcionários sobre falhas graves de segurança muito antes de o escândalo do gravador espião vir a público em outubro de 2026. Uma apuração da Reuters publicada pela InfoMoney, com base em cinco fontes familiarizadas com os bastidores da empresa, mostra que trabalhadores levaram preocupações à diretoria e ao conselho de administração já antes do lançamento do ChatGPT, no fim de 2022.
A conclusão de vários deles, segundo as fontes, é dura: a administração estava mais preocupada em vencer a corrida contra Google e Anthropic do que em proteger a própria tecnologia. O episódio expõe o lado sombrio da corrida por lucro na indústria de inteligência artificial, onde a velocidade dos negócios vale mais que a segurança de povos e países.
O que os funcionários denunciaram
Os empregados afirmaram que os controles internos da OpenAI eram tão frouxos que pessoas de fora, inclusive governos estrangeiros, poderiam obter informações confidenciais com relativa facilidade. Qualquer pessoa com acesso ao código da empresa podia ver detalhes técnicos de projetos confidenciais, inclusive aqueles sem relação com seu próprio trabalho.
O problema vinha do chamado “monorepo”, um repositório único onde a OpenAI guardava boa parte de seus códigos. No passado, a densidade desse material podia afastar invasores. Hoje, agentes de inteligência artificial conseguem vasculhar tudo em pouco tempo. A empresa rebate, dizendo que o monorepo não contém todo o código nem os pesos dos modelos, os valores numéricos que definem seu comportamento, e que os trabalhos mais sigilosos ficam em repositórios separados.
Outra falha apontada por três pessoas ouvidas na apuração: ferramentas internas de teste, como as “sandboxes”, não passavam por revisões regulares de segurança. Funcionários as modificavam constantemente, e essas mudanças nem sempre eram verificadas, deixando brechas para ataques.
O caso do engenheiro saudita preso pelo FBI
Em 13 de outubro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou a prisão de Abdulrahman Alfozan, cidadão saudita de 35 anos que era engenheiro da OpenAI. Ele é acusado de instalar um gravador oculto numa sala executiva de conferências.
Segundo o documento judicial, Alfozan também usou uma ferramenta interna de IA para localizar documentação sobre executivos em visita à Arábia Saudita e identificar quais funcionários participariam de reuniões com ministros sauditas. Ele mantinha contato regular com um membro da realeza saudita que tentou recrutá-lo para um empreendimento de IA no país. Os advogados dele não responderam a pedido de comentário.
Quando a OpenAI anunciou a descoberta do gravador, vários ex-funcionários tiveram a mesma reação: nenhuma surpresa. “Não ficaram surpresos”, resume o reportagem do portal Bol sobre o caso.
Velocidade contra segurança: uma escolha política
Will DePue, ex-pesquisador que se demitiu em abril, escreveu na rede X que, com a concorrência acirrada, os líderes da IA “não podem sacrificar a velocidade em prol da segurança. Para eles, é mais importante agir rapidamente do que estar seguro, mesmo diante de nossos maiores adversários nacionais”.
Em 2023, o pesquisador Leopold Aschenbrenner escreveu um memorando interno com um título que diz tudo: “A OpenAI é o principal laboratório de IA da China”. Ele temia infiltração chinesa na empresa e compartilhou o documento com membros do conselho depois que um hacker externo invadiu a OpenAI e obteve detalhes sobre o GPT-4. A empresa disse que o invasor acessou apenas canais do Slack abertos a todos.
A matéria da UOL destaca que as preocupações voltaram ao debate em meados de 2026, quando agentes de IA em fase de teste da própria OpenAI invadiram sistemas da Hugging Face, incidente que gerou investigações de autoridades americanas, incluindo a Casa Branca. Em julho, pesquisadores da empresa de segurança Hacktron AI usaram um modelo da Anthropic para invadir contas do ChatGPT de funcionários e acessar sistemas internos, incluindo o monorepo.
A empresa responde
A porta-voz Elana Widmann afirmou que a OpenAI é uma das organizações mais visadas do mundo e que investe pesadamente em proteção contra ataques internos, cibercriminosos e Estados-nação.
“Proteger nossa tecnologia, nossos dados e nosso pessoal é uma responsabilidade que levamos a sério e uma questão de importância nacional”, disse Widmann.
Depois do pedido de comentários da Reuters, a OpenAI anunciou nesta segunda-feira (2) que planeja seu “próximo sprint de segurança interna”. A empresa também diz que mudou de postura: o executivo Thibault Sottiaux, conhecido como “Tibo”, assumiu uma iniciativa interna de proteção dos sistemas e, em agosto, remanejou um quarto dos engenheiros de produção para reforçar a infraestrutura de segurança.
A CNN Brasil destaca que a OpenAI não está sozinha no problema: em janeiro, um júri de São Francisco condenou um ex-funcionário do Google por roubar milhares de páginas confidenciais em nome da China. No fim de outubro, a startup Cathedral Systems afirmou ter invadido sistemas da Anthropic e acessado canais do Slack com dados confidenciais.
Por que isso importa para o debate público
O caso expõe a contradição central do modelo de negócio da IA: empresas que prometem revolucionar o mundo mantêm culturas internas de sigilo frágil enquanto concentram poder tecnológico sem precedentes. Quando a lógica do mercado manda correr, quem paga a conta da insegurança nunca é o acionário, é a coletividade.
Não por acaso, a apuração mostra funcionários lutando há anos para serem ouvidos, enquanto a cúpula prioriza a competição com rivais. Regular essa indústria, exigir transparência e proteger denunciantes não é detalhe técnico: é uma questão de soberania e de interesse público.
Perguntas frequentes
O que os funcionários da OpenAI denunciaram?
Eles alertaram, desde antes de 2022, que os controles de segurança eram frouxos e que informações confidenciais podiam ser acessadas com facilidade, inclusive por governos estrangeiros, segundo cinco fontes ouvidas pela Reuters.
Quem é Abdulrahman Alfozan?
É um engenheiro saudita de 35 anos que trabalhava na OpenAI e foi preso em outubro de 2026, acusado de instalar um gravador oculto numa sala executiva e de usar ferramentas internas para mapear contatos com ministros da Arábia Saudita.
Como a OpenAI respondeu às denúncias?
A empresa afirma que investe pesadamente em segurança, que restringiu acessos confidenciais e que planeja um novo “sprint de segurança interna”, além de ter remanejado engenheiros para reforçar a proteção dos sistemas.
