A farra da IA está queimando os data centers por dentro. E a conta pode vir para o povo
Enquanto as big techs correm para construir data centers cada vez maiores para alimentar a inteligência artificial, um problema grave está surgindo nos bastidores: essas instalações estão se desgastando num ritmo muito mais rápido do que o previsto. E o culpado é o consumo de energia, que sobe e desce de forma tão violenta que está quebrando baterias, geradores e até turbinas. A reportagem é baseada em entrevistas com mais de 30 especialistas dos EUA e da Europa, e mostra que o problema é global.
O que está acontecendo com os data centers de IA?
Data centers tradicionais existem há décadas e consomem energia de forma relativamente estável. Mas os centros projetados para IA são diferentes. Eles exigem uma potência muito maior e, pior, essa demanda varia de forma dramática. Picos de consumo equivalentes ao de uma cidade pequena podem surgir e desaparecer em segundos. É como se você estivesse dirigindo um carro e, do nada, pisasse fundo no acelerador e depois freasse bruscamente, o tempo todo. O motor não aguenta.
“A IA realmente cria uma demanda de energia muito incomum”, explica Amber Villegas-Williamson, consultora do Uptime Institute, no Reino Unido. “É como acelerar demais o carro: desgasta o motor muito mais rápido do que manter uma velocidade constante.”
Equipamentos quebrando antes do tempo
Os números são assustadores. Um data center de 1 gigawatt consome tanta energia quanto uma cidade do porte de Boston, nos EUA. E metade dessa carga pode ligar e desligar a cada poucos segundos, segundo Shannon Miller, da Mainspring Energy. Alguns campi de IA planejados no Texas e no Meio-Oeste americano são mais de cinco vezes maiores, consumindo quase tanta energia quanto a cidade de Nova York.
O resultado? Virabrequins de motores a gás natural quebram. Turbinas a gás desenvolvem rachaduras, como ocorreu na instalação Colossus, da xAI, em Memphis, Tennessee. Baterias instaladas para suavizar as oscilações de energia estão sendo substituídas em questão de meses ou até semanas. “É como dirigir uma Ferrari e passar direto da sexta marcha para a primeira”, compara Jon Parrella, CEO da Terraflow Energy. “Você não consegue fazer essa virada tão rápido.”
O lucro das big techs versus a conta para a sociedade
Enquanto as empresas de tecnologia embolsam bilhões com a corrida da IA, quem paga o pato pode ser o povo brasileiro e o planeta. Os problemas de confiabilidade já estão atrasando operações e reduzindo a receita de algumas instalações. Um campus de IA de 2,67 GW no oeste do Texas, por exemplo, teve seu cronograma de fornecimento de energia adiado de 2027 para 2028.
“A consequência financeira não é primariamente substituir uma bomba ou um disjuntor”, diz Jason Hoffman, diretor de estratégia da Switch, construtora de data centers. “É o valor daquela capacidade computacional cara deixando de gerar receita porque está offline.” E o custo da inatividade? Pode chegar a centenas de milhares de dólares por minuto.
Mas o problema não é só financeiro. A instabilidade na rede elétrica pode causar apagões e prejudicar comunidades inteiras. A North American Electric Reliability Corp. (NERC), principal órgão regulador dos EUA, já alertou que os data centers são um dos maiores riscos para a estabilidade da rede. “Essas cargas são extremamente dinâmicas ou flutuantes, o que causa instabilidade na rede e pode levar, se não for corrigido, a potenciais apagões ou interrupções no fornecimento”, afirma Sreemant Roy, especialista da Schneider Electric.
O que está sendo feito? Pouco, e com riscos
A indústria de IA está ciente do problema e corre para encontrar soluções. A Nvidia, gigante dos chips, começou a trabalhar mais de perto com especialistas em energia. Alguns data centers estão usando “matemática fictícia” para manter as GPUs operando de forma estável, mas isso só aumenta o desperdício de energia. O National Laboratory of the Rockies, nos EUA, montou um ambiente de testes para integrar a IA à rede elétrica com segurança.
“Temos a oportunidade agora de fazer isso direito”, diz Martha Symko-Davies, gerente do programa. Mas, para os críticos, a pergunta que fica é: por que a sociedade tem que arcar com os custos de uma tecnologia que beneficia apenas os acionistas das big techs?
E no Brasil?
O Brasil não está imune a esse problema. Com a chegada de grandes data centers de IA no país, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, a pressão sobre a rede elétrica brasileira pode aumentar. E, num cenário de crise energética e tarifas altas, quem vai pagar a conta? O povo, como sempre. Enquanto isso, as empresas de tecnologia seguem lucrando, sem se preocupar com os impactos sociais e ambientais de sua ganância.
A corrida da IA não pode vir acompanhada de apagões, quebras de equipamentos e custos que recaem sobre os mais pobres. É hora de exigir regulação, transparência e responsabilidade social dessas empresas. O futuro não pode ser construído sobre os escombros de um planeta quebrado.