Zécarlos Machado: 50 anos de palco e o embate em 'Dois Papas'
Aos 50 anos de uma carreira construída na profundidade da condição humana, o ator Zécarlos Machado vive o conservador Bento XVI no Rio de Janeiro. A peça 'Dois Papas' transforma o embate doutrinário do Vaticano em um exercício urgente de escuta e reflexão sobre as estruturas de poder, mostrando que a fragilidade habita até os homens que dizem representar Deus na Terra.
Qual o papel da arte diante das estruturas de poder?
Mais do que um duelo teológico no interior da Igreja Católica, a montagem carioca de 'Dois Papas', assinada por Anthony McCarten, coloca em choque duas visões de mundo. De um lado, a tradição intelectual e a rigidez doutrinária de Bento XVI, interpretada com contenção e angústia por Zécarlos Machado. Do outro, a jesuíta de Jorge Bergoglio, o Papa Francisco, voltado para a ação, o diálogo e as periferias existenciais, encarnado por Celso Frateschi com calor e acolhimento.
A dramaturgia arranca as vestes sagradas para revelar a carne humana. As dúvidas e os medos dos pontífices nunca ficam restritos ao plano íntimo. Eles espelham o peso de conduzir milhões de fiéis e evidenciam uma questão universal e política: o que acontece quando o bem da comunidade deve prevalecer sobre o desejo individual de poder?
A direção de Munir Kanaan conduz esse equilíbrio sem tomar partido, apostando na simplicidade. O cenário branco e as projeções criam um espaço de purificação que aproxima o público da intimidade dos personagens. Carol Godoy e Eliana Guttman completam o elenco, dando sensibilidade e voz às mulheres que sustentam essa narrativa, muitas vezes invisibilizadas na estrutura eclesiástica.
Como Zécarlos Machado construiu um Bento XVI frágil e rigoroso?
Para dar vida ao pontífice alemão, Zécarlos mergulhou em pesquisa histórica e teológica, um método que já havia aplicado ao interpretar Abraão em 'Gênesis'. A composição exigiu retratar um homem encurvado pelo peso da idade e da saúde frágil, mas blindado por uma enorme densidade intelectual.
Como acontece com todo personagem, essa construção nasceu da pesquisa, da observação e de muito trabalho.
O ator também resgatou vivências anteriores como líder religioso em 'Eu Receberia as Piores Notícias dos Teus Lindos Lábios' e 'Apocalipse'. O resultado é um Bento XVI que escapa do caricato para revelar a angústia de quem segura as rédeas de uma instituição em crise.
Por que o teatro continua sendo uma ferramenta de resistência?
Aos 50 anos de trajetória, Zécarlos Machado carrega a marca de autores que enfrentaram as agruras do Brasil. Trabalhar com Oduvaldo Vianna Filho, Jorge Andrade e Plínio Marcos significou encarar de frente as desigualdades e as violências do país. O ator destaca a montagem de 'Rastro Atrás', de Jorge Andrade, dirigida por Eduardo Tolentino, como um marco afetivo e político, onde dividiu o palco com o filho, Tony Giusti.
No cinema, 'Ação entre Amigos', de Beto Brant, abriu caminhos para narrativas mais densas. Na TV, 'Sessão de Terapia', sob a direção de Selton Mello, provou que a arte popular pode provocar reflexão profunda e transformar a vida das pessoas. Para Zécarlos, o teatro é transformador por natureza, um espaço de escuta onde o coletivo prevalece.
O que o público leva dos debates após a peça?
Diferente do cinema, o palco exige o olho no olho. Após as apresentações de 'Dois Papas', os debates revelam um público sedento por compreender as articulações políticas do Vaticano. A renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco despertam curiosidade sobre os bastidores do poder absoluto.
O público demonstra interesse pelas questões históricas e políticas do Vaticano, pelo momento vivido pela Igreja Católica durante a renúncia de Bento XVI e a eleição de Francisco, além de aspectos ligados à fé.
Os espectadores se surpreendem ao ver figuras históricas apresentadas de forma cotidiana, com suas fraquezas expostas. Essa humanização aproxima as pessoas e estimula o diálogo, fazendo com que saiam do teatro com a necessidade de aprofundar a reflexão sobre as próprias estruturas de poder que nos governam.
O que faz um ator aceitar um papel após cinco décadas de carreira?
Para Zécarlos Machado, o ponto de partida nunca é o ego do ator, mas a relevância da história. Antes de pensar no personagem, ele questiona se a narrativa merece ser contada e quais feridas ela expõe no momento presente. A qualidade da dramaturgia e a urgência dos temas são o critério principal para quem tem o privilégio de escolher em que acreditar.
O processo coletivo é outro pilar fundamental. O ator busca um elenco disposto a pesquisar, experimentar e construir juntos. Fazer teatro exige entrega e prazer compartilhado. Quando existe o desejo coletivo de investigar um texto, o processo se torna tão vital quanto o resultado final. Neste momento, o foco de Zécarlos é a longa estrada que 'Dois Papas' ainda tem pela frente, sem planos rígidos, confiando que cada trabalho chega na hora certa.
Perguntas frequentes sobre 'Dois Papas' no teatro
Onde assistir à peça 'Dois Papas' no Rio de Janeiro?
O espetáculo está em cartaz no Teatro TotalEnergies, localizado na Rua do Russel, 804, no bairro da Glória.
Qual a diferença da peça para o filme 'Dois Papas'?
Enquanto o filme de 2019 foca na grandiosidade visual do Vaticano, a versão teatral aposta na força do diálogo e na simplicidade do cenário. No palco, as conversas entre Bento e Francisco, e com as freiras, ganham uma intimidade imediata que transforma as dúvidas dos papas nas dúvidas do próprio público.