Zelensky convoca Putin para cessar-fogo: 'Chega de guerra, a escolha é sua'
Numa manobra ousada para tentar frear a carnificina, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky propôs nesta quinta-feira (4/6) um encontro face a face com Vladimir Putin. O objetivo é pôr fim à guerra que sangra a Ucrânia desde fevereiro de 2022, um conflito que já destruiu famílias, cidades e o futuro de toda uma geração.
Carta aberta ao opressor
Em carta aberta, Zelensky foi direto: seria errado simplesmente esperar que a guerra na Europa volte a ser foco da atenção dos Estados Unidos. A paz, disse ele, só pode vir através do engajamento direto entre Ucrânia e Rússia. O líder ucraniano pediu um cessar-fogo total durante as negociações, algo que Putin, mais cedo, já havia descartado com frieza.
A carta é um soco no estômago. Zelensky escreve:
Não é como se nós, na Ucrânia, estivéssemos preocupados com o destino dos soldados russos depois de tudo o que a sua guerra trouxe ao nosso país. Mas eu me importo com os ucranianos. Estamos perdendo nosso povo, e cada perda é dolorosa para nós.
O povo russo também sangra
Zelensky lembra que do outro lado da fronteira a população também sofre. Os russos estão cansados dos ataques de drones e mísseis ucranianos, da escassez de gasolina, da inflação galopante e de enterrar seus filhos numa guerra que não pediram.
Não tenha medo de trilhar o caminho para fora desta guerra. É isso que mais se exige de você agora, escreveu Zelensky, apontando que a Ucrânia propõe o fim do conflito por meio de diálogo direto.
Enquanto isso, a máquina bélica segue moendo vidas. Autoridades instaladas pela Rússia na Crimeia ocupada culparam a Ucrânia pela morte de quatro pessoas em ataques a Simferopol. A Ucrânia confirmou ter atingido um depósito de combustível. No dia anterior, Kiev havia lançado um ataque com drones nos arredores de São Petersburgo, ação que Zelensky mencionou na carta como uma visita.
Putin joga sujo, como sempre
O Kremlin confirmou ter recebido a carta. Mas Putin, falando a jornalistas estrangeiros no fórum econômico de São Petersburgo, aparentemente sem nem ter lido o conteúdo, já mostrou suas cartas. Disse estar certamente preparado para um acordo, mas ressaltou que compromissos seriam necessários. A velha tática: prometer na mesa o que não pretende cumprir no campo de batalha.
Pior ainda, Putin lançou dúvidas sobre a própria legitimidade de Zelensky como representante da Ucrânia, jogando a questão para os advogados. E reafirmou a velha ambição imperial: quer controlar toda a região de Donbas e sugeriu que a União Europeia poderia convencer Zelensky a se render.
Zelensky não engoliu a provocação. Na carta, acusa Putin de adiar regularmente seus próprios prazos para capturar partes da Ucrânia e menciona a região de Donetsk:
Vocês não a capturarão.
Trump tenta capitalizar o sangue derramado
Enquanto povos morrem, Donald Trump tenta roubar a cena. O presidente americano disse que acharia ótimo se os dois líderes se encontrassem e teve a audácia de afirmar que os EUA foram fundamentais para aproximar os dois países da paz.
Fico feliz que eles estejam talvez falando sobre se encontrar. Acho que tivemos muito a ver com isso, disse Trump, na típica postagem de quem quer aparecer sem sujar as mãos.
Questionado sobre quais compromissos cada lado teria que fazer, Trump preferiu não dizer, limitando-se a declarar: Quero que cada um faça certos compromissos, e acho que vão fazer isso. Vazio, como sempre.
A guerra de Biden virou a guerra de Trump?
As negociações de cessar-fogo estão paralisadas há meses, desde o início da guerra com o Irã, em fevereiro. Tentativas anteriores em Genebra, Abu Dhabi e Istambul fracassaram. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, foi categórico ao afirmar que a posição dos EUA em relação à Ucrânia não é diferente da de seus aliados europeus. E cravou:
A guerra de Biden se tornou a guerra de Trump.
Para os povos que sangram nos dois lados da fronteira, pouco importa de quem é a guerra. O que importa é que ela acabe. Zelensky propôs negociações presenciais em países como Suíça ou Turquia. O caminho para a paz existe. Falca coragem política para trilhá-lo. E, acima de tudo, falta que Putin entenda que a soberania da Ucrânia não é negociável.