Por Ana Paula Yazbek, diretora do espaço ekoa, em São Paulo, mestre em educação pela USP
Enquanto as elites garantem acesso irrestrito aos livros para seus filhos, a maioria das crianças brasileiras cresce sem bibliotecas escolares. Esta não é apenas uma questão educacional, é uma questão de justiça social.
A sexta edição da Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil escancara uma realidade cruel: nossa população tem consumo limitado de livros, concentrado em temas religiosos, didáticos e best-sellers midiáticos. Não por acaso. O sistema educacional brasileiro, historicamente elitista, nega às classes populares o direito fundamental à literatura.
Leitura como instrumento de poder
Não podemos esquecer que, historicamente, a leitura foi instrumento de poder de instituições e grupos sociais dominantes. Compreender a leitura, assim como o acesso à arte, à informação e à educação, como direitos de todos é fundamental para a democracia.
Uma escola sem biblioteca comunica silenciosamente que a leitura não é importante para os filhos da classe trabalhadora. Mais do que um espaço físico, a biblioteca representa a oportunidade de revelar aos estudantes das periferias que a literatura é uma ferramenta vital para perceber o mundo, expressar emoções e refletir sobre si e o outro.
Sua ausência não é casual, é política. Priva deliberadamente os alunos das escolas públicas de experiências humanas e universais, fundamentais à formação integral que as elites reservam para si.
Lei existe, mas não é cumprida
A biblioteca escolar é obrigatória pela Lei 14.837/2024 e deve ter gestão de bibliotecário graduado. Mas sabemos como funciona no Brasil: leis progressistas existem no papel, enquanto na prática o descaso perpetua as desigualdades.
"A falta de valorização desse dispositivo de cultura e informação explica sua ausência em parte significativa das escolas", denuncia a especialista. É preciso cobrar dos governos o cumprimento integral desta lei.
Ressignificar a leitura desde a infância
Para que a leitura deixe de ser obrigação e passe a ser convite, precisamos ressignificar a relação com ela desde a infância. A escola pública deve criar espaços onde ler seja natural e prazeroso, não privilégio de classe.
Ambientes convidativos, com cantinhos acolhedores e livres de estigmas, podem transformar a biblioteca em ponto de encontro e estimular o encantamento pelas páginas. Mas isso exige investimento público, que os governos neoliberais sistematicamente negam.
Diversidade contra o pensamento único
Como lembra Chimamanda Adichie, há muitas narrativas esperando para serem contadas, e todos têm o direito de escutá-las. É papel da escola pública, em parceria com a comunidade, promover a diversidade de temas, autores e estilos, especialmente vozes negras, indígenas, femininas e periféricas.
As bibliotecas devem construir acervos amplos e diversos, que reflitam não apenas o contexto social da escola, mas que também abram janelas para outros mundos e possibilidades. Livros que desenvolvam o pensamento crítico e questionem as estruturas de poder.
Literatura pura, não apenas paradidática
Os livros paradidáticos, embora úteis, não podem ser o único contato das crianças trabalhadoras com a literatura. "A leitura de textos literários em sua forma pura dialoga diretamente com os sentimentos, estimula a imaginação e amplia a compreensão do mundo".
A biblioteca deve ser espaço de descoberta, onde emoções se manifestam e experiências se compartilham. Uma biblioteca que acolhe risos, suspiros, lágrimas e descobertas é ponte para o prazer de ler e ferramenta de transformação social.
Projeto coletivo de nação
Transformar o Brasil em país de leitores exige esforço conjunto de escolas, governos progressistas, movimentos sociais e comunidades. Começa com ações concretas: investimento público em bibliotecas, valorização dos profissionais da educação, criação de espaços de leitura sensível nos territórios populares.
Uma nação leitora desenvolve cidadãos mais críticos, articulados e capazes de transformar sua realidade. Amplia vocabulário, capacidade de argumentar e compromisso com sociedade mais justa e democrática.
A luta pelas bibliotecas escolares é luta contra a perpetuação das desigualdades. É luta pelo direito à educação integral, pela democratização da cultura, pela construção de um Brasil onde todos tenham acesso às ferramentas de compreensão e transformação do mundo.
