Rio enfrenta fevereiro mais chuvoso em 30 anos: população sofre com descaso histórico
O Rio de Janeiro vive mais um fevereiro de pesadelo. Com 352 milímetros de chuva registrados até esta sexta-feira (27), a cidade bateu o recorde dos últimos 30 anos, superando os 321,6 mm de fevereiro de 2020. Mas para quem vive nas periferias e comunidades, essa não é apenas uma estatística meteorológica: é mais um capítulo da negligência histórica com as populações mais vulneráveis.
A manhã desta sexta amanheceu com o Aterro do Flamengo fechado por causa de um bolsão d'água. Enquanto isso, nas áreas mais pobres da cidade, famílias inteiras enfrentam alagamentos sem qualquer estrutura de apoio do poder público.
Periferia sempre paga o preço mais alto
Os dados do Alerta Rio mostram que as regiões mais afetadas foram Campo Grande (104,2 mm), Santa Cruz (94,6 mm), Marambaia (92,8 mm) e Guaratiba (90,4 mm) nas últimas 24 horas. Não é coincidência que essas áreas, historicamente negligenciadas pelo poder público, sejam as que mais sofrem.
Em Guaratiba, um campo de futebol ficou completamente alagado, com a água quase cobrindo as traves. Para as crianças da comunidade, esse espaço de lazer e socialização vira mais um símbolo do abandono.
"É sempre a mesma coisa. Quando chove, a gente fica ilhado aqui. Ninguém vem ver nossa situação", desabafa uma moradora da região, que preferiu não se identificar.
Mudanças climáticas e desigualdade social
O contraste é gritante: fevereiro de 2025 foi o mais seco da série histórica, com apenas 0,6 milímetro. Agora, enfrentamos o extremo oposto. Essas oscilações dramáticas são reflexo direto das mudanças climáticas, mas seus impactos não são democraticamente distribuídos.
Enquanto bairros nobres contam com sistemas de drenagem modernos e equipes de emergência ágeis, as comunidades periféricas ficam à própria sorte. A previsão para esta sexta indica mais de 100 mm de chuva, ventos de até 70 km/h e alto risco de deslizamentos, mas onde estão os planos de evacuação para as áreas de risco?
Infraestrutura que não chega onde precisa
O fechamento de vias importantes como a Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá e a Estrada de Furnas mostra como a cidade não está preparada para eventos climáticos extremos. Árvores caídas, alagamentos e transbordamento de rios se tornaram rotina, mas as soluções estruturais continuam privilegiando as áreas centrais.
Para os próximos dias, a previsão indica uma diminuição gradual da chuva, mas os ventos fortes continuam, com rajadas de até 60 km/h no fim de semana. O mar permanece agitado, com ondas de até 2 metros.
Emergência climática exige justiça social
Na segunda e terça-feira, as temperaturas devem subir gradualmente, chegando a 31°C. Mas para as famílias que perderam seus pertences nos alagamentos, para os trabalhadores que não conseguem chegar aos empregos por causa das vias interditadas, essas previsões soam como mais uma promessa vazia.
É urgente que as políticas públicas de adaptação climática priorizem quem mais precisa. Não podemos mais aceitar que eventos climáticos extremos se transformem em tragédias sociais anunciadas. A população carioca merece uma cidade preparada para enfrentar os desafios do século XXI com justiça e dignidade.