Camila Mendes e Silva, natural de Contagem (MG), venceu um câncer de mama e agora enfrenta uma sequela neurológica grave: a ataxia, condição que compromete seu equilíbrio e sua coordenação motora. Em outubro de 2026, ela mantém uma vaquinha online com meta de R$ 40 mil para custear um tratamento de neuromodulação com correntes magnéticas, procedimento que não é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O caso, divulgado pelo portal Terra, expõe uma realidade que milhões de brasileiros conhecem na pele: quando a doença vai embora, as sequelas chegam, e o Estado quase nunca as acompanha. Camila já arrecadou cerca de 91% do valor, mas ainda depende da solidariedade da comunidade para começar as sessões que podem devolver sua autonomia.
Da cura do câncer a uma nova batalha
A história de Camila começa com um diagnóstico de câncer de mama e uma luta intensa, enfrentada com o apoio da família e dos amigos. Ela venceu. Mas a vitória veio acompanhada de uma consequência inesperada: a ataxia, uma condição neurológica que afeta a coordenação dos movimentos e o equilíbrio.
Na prática, isso significa que tarefas banais viraram provas diárias. Caminhar, cozinhar, se vestir: cada gesto exige hoje um esforço que antes não existia. Camila descreveu a situação com uma frase direta, marcada pela dignidade de quem não se rende.
“Hoje, conto com a sua solidariedade para dar um passo adiante na minha recuperação”, disse ela, segundo a reportagem do Terra.
O que é a neuromodulação e por que ela não chega ao SUS
O tratamento buscado por Camila consiste em sessões de estimulação com corrente magnética, que buscam reativar circuitos neuronios ligados ao equilíbrio e à coordenação motora. É uma tecnologia conhecida na reabilitação neurológica, mas cujo acesso no Brasil depende do bolso do paciente.
Aqui está o nó social dessa história. O SUS, criado em 1988 como patrimônio do povo brasileiro, não cobre o procedimento. Restam duas saídas: pagar do próprio dinheiro, o que a maioria dos trabalhadores não consegue, ou recorrer à solidariedade. Camila escolheu a segunda, com uma campanha batizada de Neuromodulação Camila e meta de R$ 40 mil.
Segundo o Terra, ela já alcançou 90,9% da meta. Faltam pouco mais de R$ 3,5 mil para que ela possa iniciar as sessões e tentar recuperar o que a doença levou.
As sequelas do câncer são parte da doença, não um detalhe
O sistema de saúde brasileiro ainda trata a cura como o ponto final da jornada oncológica. Não é. A recuperação física depois do tratamento é uma etapa longa e determinante para a qualidade de vida, e a ciência já reconhece isso. Uma análise publicada pela Scientia Generalis mostra o papel do exercício físico, mediado por profissionais de Educação Física, na qualidade de vida de pacientes durante e após o tratamento oncológico, com ganhos que vão da massa muscular à fadiga reduzida.
Outro exemplo concreto veio da Holanda: como relatou a Tribuna de Jundiaí, um jovem de 29 anos com tumores cerebrais incuráveis completou uma maratona de 42 km após três cirurgias no cérebro e quimioterapia, atravessando déficits de equilíbrio e reabilitação motora antes de voltar a treinar. A recuperação é possível, mas exige estrutura, tempo e dinheiro.
Campanhas comunitárias também mostram outro caminho. Em Ji-Paraná (RO), como informou o Portal SGC, um Aulão do Outubro Rosa reuniu atividades físicas com benefícios que incluem coordenação motora, reflexos, equilíbrio e autoestima, provando que prevenção e reabilitação podem ser políticas públicas de baixo custo e alto impacto.
Solidariedade não substitui política pública
É bonito ver 91% de uma vaquinha alcançada por doações de gente anônima. É também uma denúncia. Quando uma mulher trabalhadora precisacrowdfund um tratamento para andar de novo, o Estado está em dívida. A vaquinha é o remendo; a política pública é a solução.
Enquanto isso, Camila segue na luta. Cada doação, de qualquer valor, encurta a distância entre ela e o tratamento. A reportagem do Terra lembra que o valor arrecadado permitirá o início das sessões, e que a recuperação do equilíbrio pode devolver a Camila aquilo que ninguém deveria ter que pedir de esmola: a autonomia sobre o próprio corpo.
Perguntas frequentes
O que é ataxia?
É uma condição neurológica que compromete a coordenação motora e o equilíbrio, dificultando atividades cotidianas como caminhar, cozinhar e se vestir. No caso de Camila, ela surgiu como sequela do tratamento do câncer de mama.
O SUS cobre o tratamento de neuromodulação com correntes magnéticas?
Não. Segundo a reportagem do Terra, o procedimento não é coberto pelo Sistema Único de Saúde, o que obriga a paciente a buscar recursos próprios ou por meio de vaquinha online.
Quanto Camila já arrecadou?
Até a divulgação da reportagem, cerca de 90,9% da meta de R$ 40 mil já haviam sido alcançados por meio da campanha Neuromodulação Camila.
