Invasão hacker no alerta da Defesa Civil: a tecnologia que nos protege vira arma
Na noite de sexta-feira, 19, e na madrugada de sábado, 20, milhares de celulares em várias regiões do Brasil gritaram o som estridente de alerta extremo da Defesa Civil. Mesmo com o aparelho no silencioso, a tela acendeu com uma única palavra: misantropia. Não havia tempestade, não havia enchente, não havia risco para a população. O aviso era falso. Um sistema público feito para salvar vidas foi sequestrado, e a população brasileira acordou com o susto e a sensação de vulnerabilidade diante de uma infraestrutura que deveria nos proteger.
A Defesa Civil Nacional confirmou a invasão. A plataforma do Defesa Civil Alerta foi tirada do ar à 1h30 de sábado, depois de sofrer o ataque e disparar o alerta ordenado remotamente por alguém alheio ao Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil, segundo nota do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. O órgão tratou o caso como provável ataque hacker e informou que vai acionar a Polícia Federal. A Anatel, que opera o envio em massa via Cell Broadcast, também foi acionada.
A mensagem apareceu primeiro em Curitiba e, depois, em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pará. Em parte dos aparelhos, a palavra veio escrita como misantropi4. Misantropia é a aversão, a desconfiança ou o ódio generalizado à humanidade e ao convívio social. O termo, em geral restrito a textos de filosofia e psicologia, virou um dos mais buscados do país justamente por ter surgido sem qualquer contexto numa tela de emergência.
Por que o sequestro do Cell Broadcast é um problema de segurança pública?
O que torna o episódio grave para além do susto momentâneo é o canal escolhido. O Cell Broadcast foi desenhado para ser impossível de ignorar: a mensagem se sobrepõe à tela, toca em volume alto mesmo no silencioso e não depende de cadastro nem de número de telefone. O sistema atinge todos os aparelhos dentro de uma área geográfica. É a mesma tecnologia usada para avisar sobre desastres naturais. Sequestrar esse canal significa, na prática, ter um megafone com alcance estadual e a credibilidade de um órgão público.
Quando a população começa a duvidar dos alertas oficiais, o sistema perde sua eficácia no momento em que mais precisamos dele. A apuração se concentra em como alguém conseguiu acesso de disparo a um sistema de uso restrito. Nas redes sociais, circulou a versão de que o disparo seria a divulgação de um álbum ou uma ação de marketing. Até a publicação, não há confirmação oficial de autoria nem de motivo, e os órgãos pediram que a população não trate boatos como fato enquanto a investigação avança.
5 casos históricos que mostram como invasões de sinal sempre afetaram o público
Não é a primeira vez que alguém sequestra um sinal feito para chegar a milhões de pessoas ao mesmo tempo. A radiodifusão tem uma linhagem de invasões assim, algumas resolvidas, outras até hoje sem autor. Conheça cinco casos que marcaram a história.
Max Headroom: a invasão que nunca foi resolvida (Chicago, 1987)
Em 22 de novembro de 1987, duas emissoras de Chicago foram invadidas com cerca de duas horas de intervalo. Primeiro a WGN-TV, durante o jornal; depois a WTTW, no meio de um episódio de Doctor Who. Nas duas, entrou no ar uma figura usando a máscara do personagem Max Headroom, da série de ficção científica famosa na época, entre ruídos e falas distorcidas. A invasão foi feita superando o sinal de micro-ondas que ligava o estúdio à torre transmissora. Apesar das investigações de FCC e FBI, os responsáveis nunca foram identificados, o que faz do caso o sequestro de sinal mais célebre da história.
Captain Midnight: o protesto que virou lei (HBO, 1986)
Em 27 de abril de 1986, o engenheiro de satélite John MacDougall sobrepôs ao sinal da HBO, durante o filme The Falcon and the Snowman, uma tela de protesto contra a tarifa de US$ 12,95 por mês cobrada de quem assistia por antena parabólica. A mensagem ficou no ar por quatro minutos e meio e alcançou a metade leste dos Estados Unidos. Rastreado a partir de uma conversa num telefone público, MacDougall se declarou culpado, pagou US$ 5.000 de multa e levou o Congresso americano a transformar o sequestro de satélite em crime federal. Uma disputa de preços acabou redesenhando a lei.
Vrillon: a voz do espaço (Inglaterra, 1977)
Em 26 de novembro de 1977, no sul da Inglaterra, a transmissão da Southern Television foi interrompida por quase seis minutos por uma voz que se identificava como Vrillon, do Ashtar Galactic Command, e pedia à humanidade que abandonasse as armas. Considerado o primeiro sequestro conhecido de um sinal de TV, o episódio nunca teve autor identificado e é tratado pela maioria das fontes como um trote sofisticado.
O alerta zumbi: o precedente mais próximo (EUA, 2013)
Em 11 de fevereiro de 2013, hackers invadiram o Emergency Alert System, o sistema oficial de alertas dos EUA, de emissoras de TV e rádio em Montana, Michigan, Wisconsin e Novo México. No ar, um aviso de que os corpos dos mortos estão saindo das sepulturas e atacando os vivos. Funcionou porque as estações nunca trocaram as senhas de fábrica dos equipamentos de alerta, senhas que constavam em manuais públicos. É o caso que mais se parece com o brasileiro: um sistema de emergência virado contra o público que ele deveria proteger.
FDT: o elo fraco era o equipamento (EUA, 2017)
Na época da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017, mais de uma dúzia de rádios FM comunitárias nos EUA foram sequestradas para tocar em loop a música FDT, de YG e Nipsey Hussle. A porta de entrada foram aparelhos de streaming da marca Barix conectados à internet sem senha forte, uma vulnerabilidade já conhecida desde 2016. De novo, o ponto frágil não foi a emissora, mas o equipamento barato exposto na ponta da cadeia.
Quem invadiu o alerta da Defesa Civil no Brasil?
Até o momento, não há identificação oficial dos responsáveis pela invasão. A Polícia Federal foi acionada e a investigação está em andamento. A Anatel e o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional trabalham para identificar como o acesso ao sistema foi obtido.
A invasão do alerta foi uma ação de marketing?
Nas redes sociais, circulou a hipótese de que o disparo seria uma ação de marketing ou divulgação de um álbum. Os órgãos oficiais não confirmaram essa versão e pediram que a população não trate boatos como fato enquanto a investigação avança.
Qual o risco de sequestros de sinal para a população?
O risco principal é a desinformação em larga escala e a perda de credibilidade dos sistemas de alerta de emergência. Quando um canal com alcance estadual e credibilidade pública é sequestrado, ele pode ser usado para espalhar pânico, desinformação ou simplesmente minar a confiança da população nos avisos legítimos. A segurança da infraestrutura pública de telecomunicações é uma questão de soberania nacional e proteção social.