Jovem em Gaza conserta dinheiro velho para sobreviver ao cerco israelense
No meio do caos econômico provocado pelo bloqueio israelense, Baraa Abu al-Aoun encontrou uma forma única de resistir: ele conserta notas de dinheiro velhas e rasgadas em plena rua da Cidade de Gaza.
Com apenas lápis, régua, cola e lápis de cor, este jovem que deveria estar na universidade transformou uma mesa improvisada em seu local de trabalho. "Minhas ferramentas são simples, mas o que eu faço agora é servir e ajudar as pessoas", conta Baraa.
O cerco que sufoca Gaza
Desde o ataque do Hamas em outubro de 2023 e a brutal resposta militar israelense que se seguiu, Israel interrompeu completamente as transferências de dinheiro para Gaza. A estratégia é clara: sufocar economicamente a população palestina.
A maior parte dos bancos foi destruída pelos bombardeios israelenses, muitos foram saqueados. Embora algumas agências tenham reaberto após o cessar-fogo de sete semanas atrás, não há caixas eletrônicos funcionando.
O resultado é devastador: toda a população de Gaza, mais de dois milhões de pessoas, foi empurrada para a pobreza absoluta, segundo relatório da ONU. Quatro em cada cinco pessoas estão desempregadas.
A resistência através da criatividade popular
Diante da escassez de dinheiro físico, cada cédula se tornou preciosa, independente de quão desgastada esteja. É aí que surge a genialidade popular de Baraa e outros como ele.
"É puro sofrimento e nada mais", desabafa Numan Rayhan, que foi obrigado a deixar sua casa em Jabalia. "Falta de renda, falta de dinheiro, nenhum fluxo de caixa dos bancos."
A Cogat, agência militar israelense que controla as fronteiras de Gaza, admite abertamente que bloqueia a entrada de dinheiro "devido à dependência do Hamas em relação ao dinheiro em espécie". Uma justificativa que pune coletivamente toda a população civil.
Cambistas exploram o desespero
Na ausência de um sistema bancário funcional, cambistas informais surgiram cobrando comissões abusivas de até 50% para converter transferências digitais em dinheiro vivo. São os especuladores se aproveitando do sofrimento do povo.
Zakaria Ajour, feirante local, explica a situação: "As pessoas não querem mais aceitar notas desgastadas pelo valor nominal, se houver até mesmo pequenos arranhões. Alguns clientes vêm até mim apenas porque querem troco para o transporte, mas eu não tenho troco."
Tecnologia como ferramenta de resistência
Diante das adversidades, os palestinos encontraram alternativas criativas. Carteiras eletrônicas e aplicativos de transferência se multiplicaram. O Banco da Palestina já conta com mais de 500 mil usuários de carteiras digitais em Gaza.
Organizações humanitárias como Unicef e Programa Mundial de Alimentos usam essas tecnologias para enviar ajuda direta às famílias. Desde o ano passado, o Unicef conseguiu fazer transferências para cerca de um milhão de pessoas, metade delas crianças.
Jonathan Crickx, do Unicef, testemunhou famílias pagando US$ 80 por 2 kg de tomates e US$ 70 por 5 kg de cebolas. Preços que refletem o cruel bloqueio econômico imposto por Israel.
A luta diária pela dignidade
Hanan Abu Jahel, deslocada para um campo em al-Zawaideh, recebeu 1.200 shekels da Unicef. Com esse dinheiro, ela comprou arroz, lentilhas e macarrão para 12 pessoas da família.
"Meus filhos precisam de vegetais, frutas, carne e ovos. Meu filho mais novo tem muita vontade de comer ovos, mas não consigo comprá-los", conta ela, revelando a crueldade do cerco que atinge principalmente as crianças.
Enquanto Donald Trump promete um "plano de desenvolvimento econômico para reconstruir Gaza" sem detalhes concretos, o povo palestino segue resistindo com criatividade e solidariedade.
De volta à sua mesa na rua, Baraa segura uma nota contra a luz e trabalha com dedicação. Sua placa promete reparos "com alto profissionalismo e sem fita adesiva".
"Eu só quero que esta guerra termine de vez", diz ele. "Em Gaza, estamos apenas sobrevivendo. Não somos mais seres humanos."
Mas enquanto houver Baraas consertando dinheiro nas ruas, enquanto houver palestinos encontrando formas criativas de resistir, a dignidade do povo de Gaza permanecerá intacta, apesar de todos os cercos.