Kindle e Alexa até 50% mais caros no Brasil: a conta da crise da memória RAM
Não é só o seu bolso que sente o peso da febre da inteligência artificial. A Amazon reajustou os preços de toda a linha de dispositivos vendida no Brasil, e os aumentos chegam a mais de 55%. O Kindle, a Alexa e o Fire TV ficaram mais caros, e a explicação está na corrida das gigantes de tecnologia por chips de memória para alimentar seus data centers de IA.
Na segunda-feira, 24, a empresa confirmou os novos valores. O Kindle de 16 GB da 11ª geração, lançado em 2024 por R$ 599, agora custa R$ 899, uma alta de 50%. Já o alto-falante Echo Spot, com a Alexa embutida, saltou de R$ 579 para R$ 899, um aumento de 55,27%. Enquanto isso, o modelo mais caro da linha, o Kindle Colorsoft Signature Edition, subiu apenas 6,06%. Ou seja, quem tem menos dinheiro acaba pagando proporcionalmente mais. Não é novidade, né?
Por que os preços subiram tanto?
O motivo, segundo a Amazon, é a crise global no fornecimento de memória RAM e armazenamento, apelidada de “RAM-ageddon”. Em nota, a empresa afirmou que a indústria de eletrônicos enfrenta aumentos significativos nos custos de componentes e que, depois de absorver esses aumentos pelo maior tempo possível, ajustou os preços.
Mas o que está por trás disso? A disputa por capacidade de fabricação entre os eletrônicos de consumo e os data centers voltados à inteligência artificial. A expansão acelerada dessa infraestrutura aumentou a demanda por memória de alta largura de banda (HBM), usada em processadores gráficos como os da Nvidia. Os fabricantes estão direcionando cada vez mais a produção para esse mercado, deixando a memória tradicional, usada em computadores, celulares e dispositivos domésticos, em segundo plano.
O impacto nos preços e no seu bolso
Os efeitos são bruscos. Os contratos de memória DRAM subiram cerca de 90% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao trimestre anterior, segundo a consultoria TrendForce. É o maior ajuste trimestral já registrado. E as projeções da S&P Global indicam que os valores devem continuar elevados pelo menos até 2028, sustentados pela demanda contínua de data centers.
“A indústria de eletrônicos de consumo enfrenta aumentos significativos nos custos de componentes de memória e armazenamento. Após absorver esses aumentos pelo maior tempo possível, ajustamos recentemente os preços em nossas linhas de produtos”, disse a Amazon em nota.
Não é só no Brasil: o mundo inteiro paga a conta
O reajuste não ficou restrito ao Brasil. Nos Estados Unidos, a Amazon subiu os preços de Echo, Kindle, Fire TV e dos roteadores Eero em até 60%. O Echo Dot básico passou a custar US$ 79,99, e o Kindle de entrada foi reajustado para US$ 149,99. Os aumentos foram aplicados de uma hora para outra, durante a madrugada, e confirmados por uma porta-voz da empresa à imprensa americana.
E a Amazon não é a primeira a repassar o custo da crise ao consumidor. Em julho, a Roku já havia elevado os preços de seus dispositivos de streaming em até 60%. A Apple também confirmou aumentos em produtos da linha Mac, iPad e HomePod, e até encerrou a produção do Mac Mini de entrada. A Samsung, por sua vez, registrou prejuízo inédito em sua divisão de celulares atribuído ao mesmo problema.
O lucro das gigantes e o preço da tecnologia
Enquanto isso, o CEO da Amazon, Andy Jassy, anunciou que a companhia deve gastar US$ 220 bilhões em despesas de capital em 2026, principalmente para construir e equipar data centers voltados a serviços de IA. Mesmo assim, ele admitiu que a empresa ainda não terá capacidade suficiente para atender toda a demanda por esses serviços em 2026.
Ou seja, a corrida das big techs pela inteligência artificial está encarecendo produtos essenciais para milhões de brasileiros. E, como sempre, quem paga a conta é o povo. Enquanto os acionistas comemoram, o trabalhador que queria um Kindle para ler ou uma Alexa para facilitar o dia a dia precisa pensar duas vezes antes de comprar.
Fica o alerta: a tecnologia não pode ser um privilégio de poucos. É preciso que as políticas públicas e a regulação do mercado garantam que a inovação chegue a todos, e não apenas a quem pode pagar.