Microsoft encolhe na China, mas IA mantém gigante de olho no mercado
A gigante Microsoft, que por décadas foi símbolo da presença americana na China, está num movimento silencioso de recuo. Documentos corporativos revelam que pelo menos 15 filiais e joint ventures foram fechadas nos últimos cinco anos. A empresa, que já tratou como impensável deixar o país, hoje admite, nos bastidores, que a relação com Pequim está cada vez mais difícil.
A história é antiga. Em 2010, quando o Google decidiu sair da China por causa da censura e de ataques cibernéticos, Bill Gates e o então presidente da Microsoft, Steve Ballmer, criticaram a decisão. Mas o mundo mudou. As tensões entre Washington e Pequim, as restrições americanas à exportação de tecnologia e o fortalecimento da indústria local de software tornaram o mercado chinês bem menos atraente.
A China representa hoje apenas 1,5% da receita global da Microsoft, informou a empresa em 2024. Mesmo assim, a companhia não planeja sair. Por quê? Porque encontrou um nicho lucrativo: ajudar empresas chinesas a se expandirem no exterior.
Por que a Microsoft não abandona a China?
Empresas como a ByteDance, dona do TikTok, e a varejista Shein dependem da nuvem Azure para administrar dados em conformidade com regulamentações estrangeiras. A Microsoft também oferece a clientes chineses acesso exclusivo a modelos de inteligência artificial ocidentais, como os da OpenAI, que não atuam diretamente na China.
Além disso, a empresa quer manter acesso aos engenheiros chineses de nível internacional. Em 2024, ofereceu transferência para 1.000 engenheiros de destaque, mas apenas um terço aceitou. Muitos preferiram ficar na China, trabalhando em universidades e empresas locais de tecnologia.
O governo chinês virou as costas para a Microsoft
Desde 2017, a China incentiva o uso de softwares nacionais, considerados mais seguros e cada vez mais competitivos. O Windows 10 China Government Edition, lançado com pompa em 2017, não ganhou tração. Uma análise da Reuters em seis guias de compras do governo chinês mostrou que cinco não recomendam a Microsoft.
O cenário é reflexo da desconfiança mútua. Após revelações de espionagem americana, Pequim passou a ver com suspeita qualquer tecnologia ocidental. As empresas estatais, que são as maiores do país, preferem soluções locais.
A inteligência artificial é a nova aposta
No setor privado, a Microsoft ganhou novo fôlego com a IA. Ajudar empresas chinesas a se internacionalizar tornou-se sua maior atividade no país. Mas analistas questionam a sustentabilidade desse modelo, que depende de terceiros como a OpenAI. Modelos nacionais, como o Kimi, estão cada vez mais competitivos e mais baratos.
O que isso significa para os trabalhadores e para o mundo?
Essa disputa tecnológica não é só uma briga de gigantes. Ela afeta empregos, salários e o futuro da inovação. A Microsoft Research Asia, que formou executivos de empresas como SenseTime e DeepSeek, abriu laboratórios em Vancouver, Singapura e Tóquio. Os talentos estão se espalhando pelo mundo, mas muitos preferem ficar perto de casa.
Alain Crozier, ex-chefe da Microsoft na China, resume:
“Há altos e baixos no número de pessoas e talvez em algumas das coisas que foram desenvolvidas lá. Mas nunca mudamos nem um centímetro o fato de que levaremos tecnologia para a China... para a China e para as empresas chinesas.”
A história da Microsoft na China é um espelho das contradições do capitalismo global. De um lado, a busca por lucro e mercados. De outro, a geopolítica e a soberania nacional. No meio, os trabalhadores e a população, que assistem a essa dança sem serem consultados.
Enquanto isso, a Apple planeja fabricar a maioria dos iPhones na Índia até o fim de 2026. A Tesla nega que vá se separar da China. Mas a direção é clara: o mundo está se dividindo em blocos tecnológicos, e quem perde é sempre o povo.
Fica a pergunta: até quando as gigantes vão conseguir equilibrar lucro e política? E o Brasil, onde fica nessa história? Precisamos discutir nossa própria soberania tecnológica, para não dependermos de nenhum desses gigantes.