Povo na rua: Corpus Christi de São Gonçalo é patrimônio do RJ
Com 100 mil pessoas e o trabalho coletivo de voluntários, a maior festa de Corpus Christi da América Latina mostra que tradição popular é resistência.
Fé do povo transformou as ruas do Centro
As ruas do Centro de São Gonçalo não pertenciam aos carros nesta quinta-feira (4). Elas pertenciam ao povo. Milhares de fiéis ocuparam as vias públicas na maior e mais tradicional procissão de Corpus Christi da América Latina, uma festa que é, antes de tudo, obra do trabalho coletivo e da fé popular.
A Santa Missa começou às 16h, em frente à Igreja Matriz, presidida pelo arcebispo auxiliar da Arquidiocese de Niterói, Dom Geraldo de Paula. Mas a verdadeira celebração já havia começado bem antes, com as mãos calejadas de mais de 230 voluntários que, desde a manhã, confeccionavam os tapetes de sal.
Mensagem de São Francisco: olhar para os pobres
Dom Geraldo destacou o tema deste ano: “São Francisco, modelo de amor eucarístico”, em harmonia com o Ano Jubilar Franciscano, que celebra 800 anos da morte de São Francisco de Assis. O arcebispo lembrou que São Francisco dedicou sua vida aos pobres e a todas as criaturas de Deus, seguindo os preceitos de Jesus. Uma mensagem que, nos tempos que correm, incomoda quem prefere olhar para os cofres em vez das favelas.
“É um trabalho bonito que fazemos para louvar Jesus com a confecção dos tapetes em quase dois quilômetros no Corpus Christi de São Gonçalo. Pelos tapetes, passa a Santíssima Trindade e o Deus vivo. Na celebração, rendemos graças a Deus pelo inestimável dom da Eucaristia, alimento da vida eterna.”
Na missa, também estiveram presentes o prefeito Capitão Nelson, a primeira-dama Dona Marinete Ruas, o vice-prefeito João Ventura e sua esposa, Karoline Ventura.
Vozes do povo: fé como resistência no dia a dia
Para as trabalhadoras que fazem dessa data um ritual sagrado, Corpus Christi é muito mais que uma festa religiosa. É um momento de pertencimento, de comunidade, de resistência.
Maria das Graças Soares da Silva, de 68 anos, moradora da Brasilândia, não falta ao Corpus Christi há mais de 15 anos. Pensionista, ela encontra na celebração a força que sustenta seu cotidiano.
“Eu vejo os tapetes primeiro e depois venho para a missa. Eu gosto muito desse momento, me sinto próxima de Deus. Gosto de acompanhar a procissão também. Pretendo continuar vindo todos os anos, enquanto for possível.”
Maria José Oliveira Martins, de 66 anos, diarista e moradora do Porto Novo, participa há 10 anos. Faça chuva ou sol, ela não falta. Para ela, a comunhão é o momento mais forte.
“Eu gosto muito de vir, não posso deixar de participar da missa, de ver os tapetes. Eu gosto muito do momento da comunhão na missa. Esse é meu momento de emoção, de bênçãos, de agradecer. Vou continuar vindo pelos próximos anos, com certeza.”
Obra coletiva: os tapetes que o povo faz
A celebração começou cedo, e nem a chuva impediu o trabalho coletivo. Foram confeccionados 236 tapetes de sal, usando 50 toneladas de sal, 200 sacos de serragem, xadrez, pó de café e outros materiais. Cada tapete mede 5,50m de comprimento por 3m de largura, espalhados pelas ruas Coronel Moreira César, Feliciano Sodré e Dr. Nilo Peçanha, ocupando quase dois quilômetros de extensão.
Mais de 230 voluntários de diversas igrejas, escolas, movimentos sociais e instituições da cidade trabalharam para que os tapetes ficassem prontos. Ao longo de todo o dia e até o final da procissão, cerca de 100 mil fiéis percorreram os tapetes, admirando o trabalho coletivo. A partir das 15h, louvores e o Terço da Misericórdia com o Ministério Louva Deus antecederam a Santa Missa e a procissão, que se encerrou na altura do Clube Mauá.
O esquema de segurança contou com várias secretarias do município: Meio Ambiente e Transportes, Conservação, Ordem Pública, com equipes da Guarda Municipal, Comunicação, Saúde e Defesa Civil. Ao final, equipes de Conservação iniciaram a limpeza para liberar o trânsito ainda na noite de quinta.
Patrimônio do povo: Alerj reconhece tradição popular
A tradição popular acaba de ganhar um reconhecimento importante. A Assembleia Legislativa (Alerj) aprovou, em primeira discussão, projeto de lei que considera o tapete de Corpus Christi de São Gonçalo Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro.
O projeto foi apresentado pelo presidente da Alerj, deputado estadual Douglas Ruas, e ainda passa por segunda discussão antes de seguir para sanção do governador. O tapete de sal da cidade já é considerado Patrimônio Cultural e Religioso do município.
Quando o povo se organiza e faz cultura, o resultado é isso: tradição que resiste, que atravessa gerações, que transforma ruas em obras de arte e celebrações em atos de fé coletiva. O Corpus Christi de São Gonçalo não é só a maior festa da América Latina. É prova viva de que a cultura popular, feita por trabalhadoras e trabalhadores, é patrimônio que ninguém apaga. Agora, que o Estado cumpra seu papel: reconhecer é importante, mas investir na cultura popular é dever de justiça.