Quando o amigo vira chefe: relações de poder que afetam a classe trabalhadora
No ambiente de trabalho, onde muitos brasileiros passam mais tempo que em casa, as amizades são inevitáveis. Mas quando um colega é promovido e vira chefe do amigo, surgem questões profundas sobre poder, hierarquia e como o sistema capitalista molda nossas relações pessoais.
"Essa mudança de status pode gerar muitos conflitos, porque reflete as contradições do nosso sistema de trabalho", explica Leila Said, mentora em liderança e estratégia empresarial. "Os nossos valores humanos têm que continuar, mesmo quando a empresa impõe hierarquias".
A realidade dos trabalhadores brasileiros
Para a maioria dos trabalhadores, ver um amigo crescer profissionalmente pode ser inspirador, mas também doloroso quando isso não acontece para todos. "Toda vez que vemos um amigo crescer, a gente também cresce. Mas isso só funciona quando há oportunidades reais para todos", destaca Said.
A especialista em desenvolvimento humano Vivian Wolff aponta uma realidade dura: uma pesquisa de 2020 do site americano ResumeLab revelou que metade dos trabalhadores sente inveja quando um colega é promovido. "Essa inveja não surge do nada, ela reflete a escassez de oportunidades que o sistema cria".
O desafio da maturidade em tempos difíceis
"Não é incomum que uma amizade no trabalho passe por mudanças quando um dos amigos vira gestor do outro", explica Wolff. "Essa transição exige equilíbrio entre manter a amizade e respeitar os limites que o sistema impõe".
Para o trabalhador que fica na mesma posição, o desafio é duplo: lidar com a mudança na relação e não se menosprezar. "O que não pode acontecer é esse sucesso do outro virar aquela coisa: 'Nossa, ele foi promovido e eu não fui'. Isso não é maduro, mas é compreensível numa sociedade desigual", adverte Said.
Mantendo a humanidade no ambiente corporativo
O amigo promovido também enfrenta dilemas. "Não é porque chegou à liderança que precisa ser mais profissional, se distanciar e dilacerar a amizade", pontua Said. "A transparência deve vir em primeiro lugar, mas sem esquecer que somos todos trabalhadores".
Wolff sugere que o novo líder mantenha conversas francas: "É crucial estabelecer acordos de convivência com todo o time e apoiar o crescimento profissional do amigo, celebrando as conquistas coletivas".
Ao final, essas situações revelam como o mundo do trabalho pode tanto unir quanto dividir pessoas. A chave está em manter os valores humanos acima das hierarquias impostas pelo sistema.