Temporal no Tocantins revela abandono do agronegócio familiar e falta de infraestrutura
As chuvas torrenciais que castigam o Tocantins desde janeiro escancararam mais uma vez o abandono histórico do Estado brasileiro com os produtores rurais de menor porte. Enquanto o agronegócio de exportação recebe bilhões em subsídios, os pequenos e médios agricultores enfrentam sozinhos os estragos de um temporal que já devasta plantações e isola comunidades inteiras.
"Era para estar com 70% de área colhida, mais ou menos, e hoje nós estamos em torno de 35%, porque a chuva está começando a apertar bastante", desabafa Marcos Roberto Abentroth, produtor de Silvanópolis que plantou sete mil hectares de soja. Sua angústia reflete a realidade de milhares de trabalhadores rurais que dependem exclusivamente da terra para sobreviver.
Infraestrutura precária agrava crise climática
O colapso de pelo menos 15 pontes em rodovias estaduais e estradas vicinais não é apenas consequência das chuvas, mas resultado de décadas de negligência com a infraestrutura rural. A TO-446 entre Miranorte e Abreulândia tornou-se intrafegável, enquanto na BR-010 tratores precisam socorrer veículos atolados nos lamaçais.
"No período forte da colheita, nessa última semana de fevereiro e primeira semana de março, veio muita chuva, índices acima da média. Isso fez com que a soja dos produtores estragasse, se deteriorasse", explicou Thiago Facco, vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Tocantins (Aprosoja).
Comunidades rurais abandonadas à própria sorte
Em Sandolândia, cerca de 180 famílias de comunidades rurais ficaram completamente isoladas após o desabamento de pontes. É o retrato cruel de um país que prioriza o lucro das commodities enquanto esquece quem realmente produz o alimento que chega à mesa do trabalhador brasileiro.
A situação se agrava quando observamos o impacto nas cidades menores: em Monte do Carmo e Lajeado, o abastecimento de água foi comprometido. Em Palmeiras do Tocantins, crianças foram obrigadas a caminhar quilômetros na lama ou simplesmente perderam aulas porque os ônibus escolares atolaram.
"Em Peixe, no setor Boa Vista, a inundação atingiu ruas e quintais de residências. No caso de Gurupi, bairros ficaram debaixo d'água e animais domésticos foram resgatados por moradores", relata a reportagem original.
Promessas vazias do poder público
A Agência de Transportes, Obras e Infraestrutura (Ageto) prometeu mobilizar equipes para recuperar trechos críticos em mais de 30 municípios. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) falou em "manutenção periódica" e "nova licitação". São as mesmas promessas de sempre, que chegam apenas quando a tragédia já se instalou.
Enquanto isso, os pequenos produtores rurais do Tocantins enfrentam não apenas as intempéries climáticas, mas também a tempestade de um sistema que os abandona sistematicamente. A perda da janela ideal para o plantio do milho, que se encerrou em 28 de fevereiro, representa não apenas prejuízo financeiro, mas a perpetuação de um ciclo de vulnerabilidade que atinge diretamente as famílias trabalhadoras do campo.
É urgente que as políticas públicas priorizem a agricultura familiar e a infraestrutura rural, garantindo que eventos climáticos não se transformem em catástrofes sociais evitáveis.