Temporal no Paraná expõe vulnerabilidade das famílias trabalhadoras
O temporal que atingiu o Paraná entre quarta-feira (28) e quinta-feira (29) deixou um rastro de destruição que revela, mais uma vez, como as famílias trabalhadoras são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos. Casas destelhadas, alagamentos e milhares de pessoas sem energia elétrica mostram a urgência de políticas públicas efetivas para proteger quem mais precisa.
Curitiba: Quando a chuva expõe as desigualdades
Na capital paranaense, um carro ficou preso ao tentar atravessar uma rua alagada no bairro Cidade Industrial de Curitiba (CIC), região tradicionalmente habitada pela classe trabalhadora. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), choveu cerca de 55,6 milímetros na região após a meia-noite.
O Bairro Novo registrou 56,2 mm de chuva, enquanto o bairro Portão teve o maior volume na capital, com 63,4 mm. Não por acaso, são justamente os bairros periféricos os mais atingidos, onde a infraestrutura urbana é historicamente negligenciada pelo poder público.
Por conta do temporal, árvores caíram sobre a rede elétrica, deixando moradores sem luz. A Copel informou que trabalha no restabelecimento da energia de 1.821 unidades consumidoras, mas sabemos que nas periferias o atendimento sempre demora mais.
Cascavel: O drama das famílias trabalhadoras
No oeste do estado, em Cascavel, a Defesa Civil atendeu 11 ocorrências relacionadas a destelhamentos e quedas de árvores. Aproximadamente cinco mil unidades consumidoras ficaram sem energia elétrica, afetando diretamente o cotidiano das famílias trabalhadoras.
O relato de Hellen Regina dos Santos, dona de casa, é tocante e revela a realidade de quem não tem para onde correr: "Veio [a chuva] e deu aquele estouro ali em cima primeiro. Aí meu marido falou: 'vem pra cá'. Foi um susto grande, fiquei apavorada".
A moradora contou que colocou os netos embaixo da mesa para conseguir auxiliar o marido, que é cego. Esta é a face humana da vulnerabilidade social: uma família simples, com uma pessoa com deficiência, enfrentando sozinha as consequências de um sistema que não oferece proteção adequada.
Guarapuava: Quando o clima vira inimigo do povo
Em Guarapuava, na região Central do estado, o temporal causou destelhamentos, alagamentos e queda de granizo em diferentes pontos da cidade. A Defesa Civil registrou 17 ocorrências relacionadas aos estragos.
Um morador relatou: "Eu estava conversando com a filha de boa, e aí estava uma chuva bem calma. De repente, chegou aquele tufão de vento. Então, já descobriu toda aquela parte dele do lado de cá, né? Foi bem rápido".
Segundo o Simepar, Guarapuava registrou rajadas de vento de até 67,3 km/h. A estação de Entre Rios marcou 39,4 mm de chuva, enquanto a cidade acumulou 28 mm até as 18h30.
O que vem por aí: Mais desafios para o povo paranaense
O Paraná permanece sob alertas de tempestades para quinta (29) e sexta-feira (30), segundo boletim do Centro Estadual de Gerenciamento de Riscos e Desastres da Defesa Civil e do Simepar.
Na quinta-feira, o tempo segue instável com possibilidade de tempestades, especialmente na faixa leste do estado, incluindo a Região Metropolitana de Curitiba e o litoral. As chuvas podem ser localizadas, com volumes elevados em curto período, rajadas de vento e queda de granizo.
Na sexta-feira, as regiões Leste, Centro, Norte e Noroeste mantêm o risco de pancadas de chuva, enquanto o Oeste, Sudoeste e Sul terão predomínio de nebulosidade.
A urgência de políticas públicas efetivas
Estes eventos climáticos extremos não são apenas "fenômenos naturais". Eles expõem as profundas desigualdades sociais e a ausência de políticas públicas que protejam efetivamente a população mais vulnerável. É fundamental que o poder público invista em infraestrutura urbana, habitação popular e sistemas de prevenção e resposta a desastres.
As famílias trabalhadoras do Paraná merecem mais do que lonas emergenciais da Defesa Civil. Merecem casas dignas, bairros com infraestrutura adequada e um Estado que as proteja antes, durante e depois das tempestades.