Tragédia em Ceuta: 60 mil migrantes forçados a recuar após onda de mortes e crise diplomática
Uma nova e brutal crise migratória expôs as entranhas da política de fronteiras da União Europeia. Pelo menos 67 pessoas morreram tentando alcançar o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África, em uma onda de travessias que levou cerca de 60 mil migrantes do Marrocos para o pequeno território em menos de três dias. A maioria já foi deportada de volta, mas o rastro de sangue e a suspeita de que o governo marroquino usou a vida humana como moeda de troca acenderam um alerta em todo o continente.
O que aconteceu em Ceuta?
Entre quarta e sexta-feira da semana passada, uma enxurrada de pessoas cruzou a fronteira entre Marrocos e Ceuta. O presidente local, Juan Jesús Vivas, fala em cerca de 60 mil entradas. O Ministério do Interior da Espanha estima 50 mil. Em qualquer conta, é um número que equivale a quase 70% dos 84 mil habitantes da cidade, um território de apenas 18,5 km². Para se ter ideia, em maio de 2021, quando outra crise explodiu, foram 12 mil pessoas.
O ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, afirmou que quase todos os migrantes já foram devolvidos ao Marrocos. Mas a conta oficial de mortos, 67, é um número frio que esconde histórias de desespero. A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) já pediu uma investigação independente para esclarecer as causas desse fluxo.
O Marrocos abriu as portas de propósito?
Para o jornalista Ignacio Cembrero, especialista em Magrebe, a resposta é clara: sim. Desde quarta-feira, as forças de segurança marroquinas ficaram de braços cruzados. Para chegar ao quebra-mar que marca a fronteira, há barreiras de policiais e forças auxiliares. E é evidente que elas deixaram essas pessoas passar. Caso contrário, isso não teria acontecido, afirmou.
O presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, classificou o episódio como uma violação e ataque à integridade territorial. A suspeita é que Rabat tenha usado a crise como instrumento de pressão diplomática para forçar a Espanha a negociar o futuro de Ceuta e Melilla, duas cidades que o Marrocos reivindica desde sua independência, em 1956.
Por que agora? A decisão judicial que mudou as regras
Especialistas consultados pela AFP apontam uma explicação central: a decisão do Supremo Tribunal da Espanha, de 8 de julho, que limitou as chamadas devoluções a quente. A partir de agora, a deportação imediata de migrantes que cruzam irregularmente a fronteira só vale para quem ultrapassa as cercas, não para quem entra pelo mar. Foi exatamente o mar que muitos usaram para chegar a Ceuta.
Sem dúvida, a decisão de 8 de julho desempenhou um papel. Mas isso não explica o nível de mobilização, que foi muito elevado, observou Cembrero. Outros analistas mencionam a regularização de migrantes anunciada pelo governo socialista de Sánchez ou a perspectiva de uma futura mudança de governo menos favorável ao acolhimento. Hipóteses difíceis de confirmar, mas que revelam o jogo de interesses por trás da tragédia.
Os migrantes podem ir para o resto da Europa?
Não. As autoridades espanholas insistem que Ceuta e Melilla estão submetidas a controles específicos no Espaço Schengen. Quem entra irregularmente não ganha direito de permanecer na Espanha, nem de viajar para a Península Ibérica ou circular pela Europa. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, garantiu que nem uma única pessoa chegou ao continente europeu.
Mas a crise já gerou uma reação em cadeia. A Itália suspendeu temporariamente o acordo de livre circulação com a Espanha, com apoio da Finlândia e da Dinamarca. Madri criticou duramente a decisão, e especialistas em direito afirmam que sua aplicação é impossível dentro do atual marco jurídico. A França, que inicialmente manifestou solidariedade a Sánchez, multiplicou por cinco o número de policiais na fronteira franco-espanhola. Portugal também reforçou os controles no sul do país.
Diante do caos, os ministros do Interior da União Europeia se reunirão por videoconferência na terça-feira, depois que 22 países, incluindo Itália, Alemanha e Dinamarca, pediram uma resposta conjunta.
O que isso significa para o Brasil?
Para nós, que vivemos em um país marcado pela desigualdade e pela luta por direitos, essa crise é um espelho cruel. Enquanto a Europa ergue muros e negocia vidas humanas como peças de xadrez, o Sul Global continua a sangrar. A postura do Marrocos, usando a migração como arma de negociação, e a reação dos países europeus, fechando fronteiras e suspendendo acordos, mostram que a solidariedade internacional é, muitas vezes, uma farsa.
A defesa dos direitos humanos não pode ser seletiva. Enquanto o governo Lula avança em políticas de acolhimento e integração no Brasil, a Europa expõe seu racismo estrutural e sua hipocrisia. Que essa tragédia sirva de lição: a vida de um migrante vale tanto quanto a de qualquer cidadão europeu. E enquanto houver muros, haverá luta.
Perguntas frequentes sobre a crise em Ceuta
Quantos migrantes morreram na tentativa de chegar a Ceuta?
Pelo menos 67 pessoas morreram, segundo o governo espanhol. A Associação Marroquina de Direitos Humanos pede uma investigação independente sobre as causas.
O Marrocos facilitou a entrada dos migrantes?
Sim, segundo especialistas. As forças de segurança marroquinas teriam permitido a passagem em massa, possivelmente como forma de pressão diplomática sobre a Espanha em relação à soberania de Ceuta e Melilla.
Os migrantes podem viajar para o resto da Europa?
Não. As regras do Espaço Schengen impedem a circulação a partir de Ceuta e Melilla para o continente europeu sem controles específicos. Nenhum migrante chegou à Espanha continental ou a outros países da UE.
Qual foi a reação dos países europeus?
A Itália suspendeu temporariamente o acordo de Schengen com a Espanha, com apoio da Finlândia e Dinamarca. A França reforçou a fronteira com a Espanha, e Portugal aumentou os controles no sul. Uma reunião de emergência dos ministros do Interior da UE foi convocada.