Philippe Jaenada, escritor francês de 62 anos, revelou nesta semana que usou o ChatGPT em três momentos durante a escrita de L'Inconnue du quai de Javel, o romance que conquistou o Prêmio Goncourt de 2026, a principal distinção literária da França. A declaração, feita em entrevista à rádio France Inter na quarta-feira (4), reacende o debate sobre o papel da inteligência artificial na literatura, semanas depois de a Academia Goncourt desclassificar um livro sob suspeita de autoria artificial.
Segundo o portal Terra, Jaenada recorreu à ferramenta em três situações distintas. Em uma delas, inseriu no texto um trecho produzido pela IA para ironizar as respostas absurdas que recebeu ao consultar o programa sobre uma questão técnica. As outras duas utilizações envolveram a pesquisa para o desenvolvimento da obra.
Por que a declaração de Jaenada gera polêmica
O escritor não escondeu o uso da tecnologia. Pelo contrário, defendeu que autores precisam aprender a lidar com a IA em vez de fingir que ela não existe.
“Não acho que seja possível impedir o avanço da inteligência artificial. Não podemos fingir que ela não existe. É preciso usá-la, reconhecer sua existência e, acima de tudo, aprender a domá-la. Ela precisa ser útil”, afirmou Jaenada.
A fala chega num momento delicado. Como lembra o jornal britânico The Guardian, o caso ocorre poucas semanas após a desclassificação de outro romance da disputa, acusado de ter sido majoritariamente escrito por IA. Para quem defende a literatura como trabalho humano, a fronteira entre usar a ferramenta como recurso e entregar a autoria à máquina nunca esteve tão nebulosa.
O caso do livro desclassificado por suspeita de IA
Em setembro, a Academia Goncourt retirou da lista de indicados o romance C'était ça ou mourir, do escritor canadense-haitiano Thélyson Orélien. A obra já havia vendido mais de 35 mil exemplares na França e conquistado o prêmio literário da rede de livrarias Fnac.
A suspeita ganhou força depois que o jornalista Samuel Fitoussi submeteu trechos da obra ao Pangram, ferramenta de detecção de textos gerados por IA, e apontou indícios de autoria artificial. A Academia informou que análises de pesquisadores e jornalistas indicavam que o livro provavelmente havia sido produzido, em grande parte, com inteligência artificial, e justificou a decisão pela necessidade de preservar a integridade de uma premiação dedicada à literatura escrita por seres humanos.
Orélien negou ter usado a tecnologia e, em outubro, classificou as acusações como calúnia. Na mesma ocasião, reconheceu ter cometido plágio em trabalhos anteriores. Na semana seguinte, a editora canadense Boréal encerrou a parceria com o escritor e anunciou que não faria novas tiragens do livro, após identificar outras evidências de uso de IA durante o processo de escrita.
O que conta o romance premiado
Com aproximadamente 530 páginas, L'Inconnue du quai de Javel (A desconhecida do cais de Javel, em tradução livre) revisita o assassinato não solucionado de Louise Cansot, modelo de artistas de 29 anos, encontrada morta em Paris em 1949. Conhecida na região de Montparnasse como a mulher dos cem retratos, Cansot posava para pintores e escultores, e a investigação policial da época nunca identificou o responsável pelo crime.
No romance, Jaenada retoma o caso para reconstruir a trajetória da vítima e examinar como ela foi tratada pelas autoridades e pela imprensa do período. Não por acaso, segundo a euronews, o autor disse ter usado a IA também para “brincar” com o leitor, escondendo uma frase escrita pelo ChatGPT dentro da narrativa.
Jaenada venceu na primeira rodada de votação, com seis votos contra três recebidos por Sylvain Prudhomme. Antes da vitória, já havia chegado quatro vezes à lista de finalistas do Goncourt. O prêmio concede uma quantia simbólica de 10 euros, cerca de R$ 61, mas costuma impulsionar de forma expressiva as vendas do livro escolhido.
Perguntas frequentes
Quem venceu o Prêmio Goncourt de 2026?
Philippe Jaenada, escritor francês de 62 anos, venceu com o romance L'Inconnue du quai de Javel, na primeira rodada de votação, com seis votos contra três de Sylvain Prudhomme.
Como o ChatGPT foi usado no romance premiado?
Jaenada afirmou em entrevista à France Inter que usou a ferramenta em três momentos: para ironizar respostas absurdas da IA, inserindo um trecho gerado pelo programa, e em pesquisas para o desenvolvimento da obra.
Por que outro livro foi desclassificado do Goncourt?
A Academia retirou C'était ça ou mourir, de Thélyson Orélien, após análises indicarem que a obra provavelmente foi produzida em grande parte com inteligência artificial. O autor nega e chama as acusações de calúnia.
