Alceu Valença aos 80: o povo canta, as plataformas lucram
Aos 80 anos completados nesta quarta (1º), Alceu Valença cruza o Brasil com a turnê Girassol, uma celebração cinematográfica de oito décadas de obra. Em entrevista, o mestre pernambucano denuncia o repasse financeiro baixíssimo das plataformas de streaming aos artistas e cobra distribuição de renda no país. Enquanto o forró que era debochado conquistou respeito e atravessou fronteiras, Valença alerta: quem vive de música no Brasil precisa de palco para sobreviver.
80 girassóis para 80 anos de resistência cultural
Flor que acompanha o movimento do astro-rei, o girassol empresta o nome a uma das mais famosas músicas de Alceu Valença. Agora, oitenta deles batizam a nova turnê, um para cada ano de vida. O show faz uma viagem cronológica por toda a obra, com projeções que trazem registros fotográficos desde a infância em São Bento do Una. Uma música se conecta à outra, como cenas de um filme.
O mais jovem octogenário da música brasileira mantém a vivacidade dando religiosos 10.000 passos por dia. Lançou mais de trinta discos, com preciosidades como Anunciação, Tropicana (Morena Tropicana) e La Belle de Jour. Incansável, pretende lançar um autodocumentário e um livro de crônicas e poesias após as apresentações marcadas entre outubro e novembro na Europa.
Streaming enriquece plataformas e esfola quem faz a arte
Quando o assunto é a remuneração dos artistas nas plataformas digitais, Valença não poupa palavras.
Os ganhos dos artistas são baixíssimos. Só se dá bem quem faz shows.
A denúncia ecoa o que sindicatos e associações de músicos vêm apontando há anos: o modelo de negócio do streaming concentra lucros nas mãões das grandes plataformas, enquanto quem produz a arte sobrevive à margem. Para Valença, a tecnologia trouxe alcance, mas não trouxe justiça. Ele conta que hoje vê franceses e alemães cantando suas músicas, e até a torcida do clube paraguaio Cerro Porteño adaptou Anunciação para criar um dos seus cantos de arquibancada mais populares. Isso é um reflexo dessa tecnologia, reconhece. Mas o preço pago por essa visibilidade é a precarização do trabalho artístico.
Concentração de renda trava o Brasil, diz Alceu
Ao revisitar tantas fases de sua trajetória, Valença olha para o país com olhar crítico.
Estamos num contexto político muito confuso, mas nem se compara à época da Ditadura Militar. O Brasil cresceu, mas agora é preciso uma distribuição de renda mais assertiva. A concentração é tão grande que um pedaço da economia não gira.
A reflexão do artista encontra eco nos dados oficiais. O Brasil segue entre os países mais desiguais do mundo, e a concentração de renda continua sendo o obstáculo central para o desenvolvimento. Valença lembra que, quando viveu na França no final da década de 1970, havia um estado provedor que oferecia moradia e facilitava a vida da população. Um contraste duro com a realidade brasileira, onde décadas de políticas neoliberais cortaram direitos em nome de um ajuste que nunca chega para quem precisa.
Da vergonha ao respeito: a saga do forró nordestino
Valença sabe bem o que é ver a cultura do povo ser tratada como coisa menor.
Antigamente, cantar um forrozinho era motivo de deboche. Diziam que aquilo era coisa de velho, enquanto a juventude se encantava pelo rock. Havia uma certa vergonha da cultura popular.
Com o tempo, o forró atravessou fronteiras e hoje é visto como gênero sofisticado e respeitado, algo semelhante ao que aconteceu com o samba e a bossa nova. O artista destaca que lugares como o Circo Voador tiveram papel fundamental ao abrir espaço para artistas e aproximar novos públicos do ritmo. Uma lição que o Brasil aprendeu, mas que ainda precisa ser defendida todos os dias contra o elitismo cultural que insiste em menosprezar o que vem do povo, do Nordeste, da periferia.
Criação espontânea e os surtos criativos de Alceu
O processo de composição de Valença é sempre espontâneo. Ele conta que a esposa diz que tem surtos criativos.
Não adianta me mandar fazer música, só componho se vem a inspiração.
E sou muito visual. Como Dois Animais nasce de uma cena na madrugada de um Carnaval, com uma menina fantasiada de onça pintada no maior love com um rapaz vestido de cachorro. Meu olhar vagabundo de cachorro vadio / Olhava a pintada, e ela estava no cio / E era um cão vagabundo e uma onça-pintada / Se amando na praça como os animais. A pergunta que fica: será que esse cachorro era ele? Ele ri.
Anunciação: a canção que o povo fez sua
Sobre Anunciação, Valença explica que, como toda boa arte, a música é aberta. Cada pessoa interpreta do seu jeito, de acordo com as experiências e desejos. Centenas de mulheres já falaram que é sobre a chegada dos filhos, enquanto outros que viveram os anos de chumbo acreditavam que era sobre a volta da democracia.
A verdade é que essa canção surgiu por acaso, quando ele estava aprendendo a tocar flauta transversa na sala da sua casa em Olinda. A música que nasceu do acaso se tornou hino. E o povo, como sempre, soube ler entre as linhas o que a arte trazia de esperança.
Alceu Valença revisita a própria história no Spotify
Curiosamente, Valença nunca teve o hábito de ouvir música. O pai não incentivava porque queria que ele focasse nos estudos da faculdade de direito. Nem discos guardava, tem só o acervo que foi da mãe. Agora, com o Spotify, começou a revisitar o repertório. Foi uma experiência curiosa, que o fez voltar no tempo. Ele se viu gravando Cavalo de Pau no início dos anos 1980, andando de barca com Geraldo Azevedo em Niterói e fazendo arranjos com músicos da velha guarda. E lembrou de um encontro fugaz com uma moça na frente da Igreja de Nossa Senhora da Misericórdia, em Olinda, vestida de bailarina e cheia de purpurina. Ela foi a inspiração para A Mensageira dos Anjos.
Quantos discos Alceu Valença lançou?
Alceu Valença lançou mais de trinta discos ao longo da carreira, com preciosidades como Anunciação, Morena Tropicana e La Belle de Jour. Aos 80 anos, segue ativo e planeja lançar um autodocumentário e um livro de crônicas e poesias.
Por que Alceu Valença critica as plataformas de streaming?
O artista denuncia que os ganhos dos músicos nas plataformas de streaming são baixíssimos. Segundo ele, só se dá bem quem faz shows, o que evidencia a precarização do trabalho artístico num modelo que concentra lucros nas mãos das empresas de tecnologia.
Qual o significado da turnê Girassol?
A turnê Girassol celebra os 80 anos de Alceu Valença com oitenta girassóis, um para cada ano. O show faz uma viagem cronológica por toda a obra do artista, com projeções de registros fotográficos desde a infância em São Bento do Una, em Pernambuco.