BC admite: inflação deve estourar a meta em 2026 e pobre paga a conta
O Banco Central estima em 90% a chance de a inflação estourar o teto da meta em 2026. Na prática, isso significa que o custo de vida vai continuar subindo, e quem sente no bolso é o povo trabalhador. A projeção subiu 11 pontos percentuais: antes era 79%, agora é 90%. Os dados estão no Relatório de Política Monetária (RPM) de setembro, divulgado nesta quinta-feira (24.set.2026).
O teto da meta contínua é de 4,50%, mas o BC projeta o IPCA em 5,2% para dezembro. Ou seja, 0,7 ponto percentual acima do limite. E o Copom, mesmo assim, cortou a Selic em 0,25 ponto, de 14% para 13,75% ao ano, na reunião do dia 16 de setembro. Um corte tímido, que não alivia o aperto no crédito e no consumo.
Por que a inflação continua alta?
O BC aponta a incerteza fiscal como o principal vilão. As expectativas de longo prazo seguem desancoradas, ou seja, o mercado não acredita que a meta será cumprida. E os números confirmam: a Pesquisa Focus projeta IPCA de 4,30% em 2027 e 3,80% em 2028, ambos acima da meta de 3,00%.
A inflação em 12 meses até caiu, de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, mas isso foi puxado por fatores temporários, como o bônus de Itaipu na conta de luz e a bandeira amarela. O BC prevê que o IPCA volte a subir no último trimestre e feche o ano em 5,2%. Para 2027, a chance de estourar o teto é de 33%.
O povo sente no bolso: consumo cai, inadimplência bate recorde
Enquanto o BC fala em cautela, os números mostram o sofrimento real das famílias. O consumo das famílias caiu 0,4% no segundo trimestre. A inadimplência no Sistema Financeiro Nacional chegou a 4,9% em julho, o maior nível da série histórica. No crédito livre para pessoas físicas, o atraso acima de 90 dias atingiu 7,8%, também recorde.
O endividamento das famílias está em 49,9% da renda disponível. Isso quer dizer que quase metade do que entra no orçamento já está comprometido com dívidas. E o rendimento médio real ainda caiu 0,6% na margem. Ou seja, o trabalhador ganha menos e deve mais.
Governo Lula tenta segurar, mas mercado pressiona
O BC projeta um déficit primário de R$ 52 bilhões para o Governo Central em 2026. Com as exclusões legais, o resultado até vira um superávit de R$ 11 bilhões no critério da meta fiscal. Mas o déficit aciona gatilhos da Lei Complementar nº 235, que corta R$ 9 bilhões em gastos obrigatórios no Orçamento de 2027.
Enquanto o mercado projeta déficit de R$ 54 bilhões para 2027, o projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) aposta em superávit de R$ 19 bilhões. A dívida bruta deve subir 17 pontos percentuais e chegar a 100% do PIB em 2033, segundo o Focus. O Tesouro Nacional prevê pico de 88% em 2029. É uma pressão enorme sobre as contas públicas, mas o governo Lula segue tentando manter os programas sociais e o investimento.
O que esperar da economia em 2027?
O BC reduziu a projeção do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8%. Para 2027, o crescimento esperado é de apenas 1,4%. A desaceleração é clara: o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre, mas só 0,5% no segundo. O aperto monetário e a redução dos impulsos do governo estão derrubando a atividade.
No mercado de trabalho, a desocupação está em 5,4%, com 52 mil vagas formais líquidas por mês. Mas o rendimento médio real caiu. E ainda tem o risco de um El Niño intenso, que pode afetar lavouras de milho, algodão e arroz, pressionando os preços dos alimentos.
Setor externo e os riscos globais
O BC estima um déficit em transações correntes de US$ 60 bilhões em 2026, coberto pelo Investimento Direto no País, projetado em US$ 75 bilhões. Mas os conflitos no Oriente Médio e os gargalos logísticos no estreito de Ormuz podem mexer com o preço do petróleo, e isso acaba chegando no preço do diesel e da comida.
O Copom volta a se reunir nos dias 3 e 4 de novembro. A torcida é que o Banco Central olhe para o povo, e não só para o mercado. Porque, no fim das contas, é o trabalhador que paga a conta de uma política monetária que prefere a recessão à inflação.