Em poucos anos, as pessoas idosas serão 25% da população mundial, e um relatório publicado pelo Brasil 247 nesta sexta-feira (7) mostra o outro lado dessa conta: quem passou a vida trabalhando chega à velhice sem renda suficiente para sobreviver. Na Argentina, no Peru, na Itália e nos Estados Unidos, os depoimentos se repetem com a mesma raiz, um sistema que abandona quem não gera mais lucro.
O texto, do jornalista Sergio Ferrari, dá voz a aposentados de quatro países e mostra que a marginalização da velhice não é acidente. É política. Congelamento de pensões, cortes em saúde e ajustes ditados por organismos financeiros internacionais compõem o quadro que transforma milhões de trabalhadores de ontem em pobres de hoje.
Os números do envelhecimento global
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a expectativa de vida global chegou a 73,3 anos em 2024, um salto de 8,4 anos em três décadas. Até 2030, o grupo de pessoas idosas pode alcançar 1,4 bilhão de pessoas, 300 milhões a mais do que em 2023. A queda da mortalidade, somada à redução da natalidade, muda a estrutura etária do planeta.
Nas sociedades mais ricas, a queda dos nascimentos vem do acesso à contracepção e à escolaridade. Nos países pobres, vem das crises econômicas que desanimam qualquer projeto de família. O resultado é o mesmo: menos jovens para sustentar uma população que envelhece depressa.
Quem construiu tudo isso não consegue pagar as contas
Cecilia Vitelli, 65 anos, aposentada argentina, recebe cerca de 800 dólares por mês, quase o dobro do piso nacional. É a única renda do casal, já que o marido, trabalhador autônomo, não conseguiu contribuir de forma regular para a previdência. Os dois ainda criam os netos boa parte da semana.
Os gastos com eletricidade, gás, água e internet sobem todo mês, conta ela. Existe uma inflação real que passa muito do índice oficial, que é fictício. Muitos aposentados estão largando parte dos remédios e vivendo com uma única refeição por dia.
Uma família típica de um subúrbio de Buenos Aires que mora de aluguel precisa de 1.800 a 1.900 dólares por mês, mais cerca de 1.000 dólares para a cesta básica. Para um casal aposentado com 800 dólares, a conta não fecha. E Cecilia não poupa o diagnóstico político: temos um governo dos ricos, para os privilegiados.
Pedro Quispe, 72 anos, peruano, trabalhou a vida toda no setor de serviços e recebe a pensão mínima do país, entre 150 e 320 dólares. A renda não cobre a cesta básica, e ele resume o contexto: o Peru é um país rico, mas a corrupção dos governos agrava a precariedade da maioria.
Anna Bianchi, italiana, tem uma pensão de 1.450 dólares, mas a cesta básica na Itália custa 376 dólares e os serviços básicos engolem boa parte da renda já nos primeiros dias do mês. Se tivesse que pagar aluguel, seria impossível, diz.
Nos Estados Unidos, Sylvia C., 76 anos, trabalhou até os 73 para engordar o cheque da seguridade social. A inflação evaporou o ganho e o corte do subsídio federal de saúde promovido por Donald Trump atingiu em cheio quem depende dele. Ela pergunta o que milhões se perguntam: será que esqueceram que fomos nós que os deixamos ricos?
América Latina: a próxima Europa, sem a proteção da Europa
Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a população com mais de 60 anos na região vai dobrar até 2050, de 98 milhões para 183 milhões, um quarto da população total. Hoje, 35% dos idosos latino-americanos não têm nenhuma pensão ou renda regular.
Até 2037, os idosos serão mais numerosos que crianças e adolescentes na região. O grupo com mais de 80 anos vai triplicar até meados do século, o que a Cepal chama de envelhecimento do envelhecimento, com pressão permanente por cuidados de longo prazo e serviços de saúde especializados. Os serviços públicos, porém, não acompanham.
Resistência nas ruas
A resposta não tem ficado só na queixa. Na Argentina, os aposentados protestam quase toda semana desde que Javier Milei assumiu a presidência e viraram um dos principais focos de oposição ao governo. Segundo o Centro de Economia Política da Argentina, as pensões no trimestre agosto-outubro de 2026 estão 19,2% abaixo do último trimestre de 2023, e o bônus complementar está congelado em 45 dólares desde 2024.
No Equador, idosos se somaram às mobilizações contra as políticas neoliberais de Daniel Noboa, com destaque para a defesa do Instituto Ecuatoriano de Segurança Social contra tentativas de privatização. No México, houve marchas massivas em maio. Em setembro, organizações de 12 países, com apoio da Federação Mundial dos Sindicatos, realizaram na Argentina a Primeira Reunião de Aposentados das Américas.
O que dizem as Nações Unidas
A ONU declarou 2021-2030 como a Década do Envelhecimento Saudável e recomenda cuidados integrados, atenção primária adaptada às necessidades dos idosos e ampliação do acesso a cuidados de longo prazo. Também pede combate ao idadismo, o preconceito de idade que naturaliza o abandono.
A lógica dominante é clara demais: quem não produz, não conta. Os movimentos de idosos do continente estão dizendo o contrário, e organizados.
Perguntas frequentes
Quantos idosos haverá no mundo até 2030?
Segundo a OMS, o grupo de pessoas idosas pode chegar a 1,4 bilhão de pessoas até 2030, 300 milhões a mais do que em 2023.
Qual é a situação dos idosos na América Latina?
Hoje, 35% não têm nenhuma pensão ou renda regular, segundo a Cepal, e a população com mais de 60 anos deve dobrar até 2050, chegando a 183 milhões.
O que é o idadismo?
É o preconceito e a discriminação contra pessoas por causa da idade, apontado pela ONU como barreira a ser combatida para garantir envelhecimento digno.
