Michelle acusa Flávio de maltratá-la; clã Bolsonaro racha de vez
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) denunciou publicamente que o senador e pré-candidato ao Planalto, Flávio Bolsonaro, a 'maltratou' e 'desrespeitou' durante uma ligação telefônica. O episódio escancara a crise profunda no interior do clã Bolsonaro, marcada por disputas de poder, machismo estrutural e uma guerra fratricida que revela a falência do projeto bolsonarista para 2026.
O que Michelle Bolsonaro disse sobre Flávio Bolsonaro?
Segundo Michelle, o desentendimento ocorreu horas depois de ela criticar as negociações do PL com Ciro Gomes no Ceará. Ao tentar contato telefônico com o enteado, Michelle afirma que foi recebida com hostilidade e intimidação.
Ele foi muito ríspido. Me desrespeitou e maltratou ao telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política.
A fala de Flávio Bolsonaro carrega o peso do machismo que históricamente silencia as mulheres nos espaços de poder. Ao afirmar que Michelle 'chegou ontem' e 'não entende nada de política', o senador reproduz a lógica patriarcal que trata a mulher como apêndice e não como sujeito político. Para a ex-primeira-dama, a agressão foi clara.
Como a disputa de poder rachou a família Bolsonaro?
O desgaste entre a madrasta e os filhos de Jair Bolsonaro não é novidade. É o resultado de uma disputa por protagonismo político no núcleo bolsonarista. Michelle e o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro romperam relações após ele desaprovar abertamente a madrasta como candidata à Presidência ou vice.
Com Flávio, a relação azedou antes mesmo do anúncio de sua pré-candidatura ao Planalto, em dezembro. O senador criticou publicamente Michelle, chamando sua postura de 'autoritária' após ela se posicionar contra a aliança com Ciro Gomes no Ceará. Michelle defendia o nome do senador Eduardo Girão (Novo) para o governo estadual. Flávio teria pedido desculpas depois, mas o dano já estava feito.
A ausência de Michelle na defesa de Flávio
Em maio, a crise reacendeu com o caso envolvendo Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Carlos Bolsonaro e Eduardo reclamaram a aliados da ausência de uma defesa pública mais enfática de Michelle. Ela evitou comentar o caso e disse que perguntas deveriam ser feitas 'ao próprio Flávio'.
No mesmo evento em Brasília, Michelle se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, como 'irmão em Cristo', ao comentar a autorização para que Bolsonaro recebesse um cabeleireiro na prisão domiciliar. A fala gerou desconforto nos bastidores do clã e mostrou que Michelle joga seu próprio jogo.
Michelle Bolsonaro vai disputar o Senado pelo DF?
Sem espaço na corrida presidencial, Michelle indicou que disputaria o Senado pelo Distrito Federal. No entanto, ela colocou sua participação em dúvida. Em março, afirmou que ficaria afastada das articulações políticas enquanto Jair Bolsonaro se recupera.
Nos bastidores do PL, a postura de Michelle é interpretada como um sinal de que ela preserva sua posição política caso Bolsonaro decida mudar o cenário da direita. Segundo o colunista Lauro Jardim, do GLOBO, Michelle e Flávio não se falaram pessoalmente neste ano. A comunicação entre eles se dá apenas por intermediários, como o senador Rogério Marinho (PL-RN), o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, e a senadora Damares Alves (Republicanos-DF).
Por que o racha no clã Bolsonaro importa para a política brasileira?
A guerra interna dos Bolsonaro revela mais do que uma desavença familiar. Ela expõe a incapacidade da extrema direita de construir um projeto coletivo e solidário. Onde há poder, há disputa. E no bolsonarismo, essa disputa é fratricida. Enquanto os filhos de Bolsonaro disputam os restos de um projeto que custou ao país vidas e democracia, Michelle tenta construir sua própria rota de fuga. Mas o povo brasileiro não esquece: de uma forma ou de outra, o legado dessa família é de destruição.