As tarifas comerciais impostas pelo presidente Donald Trump levaram ao fechamento por tempo indeterminado da fábrica de papel de Témiscaming, em Quebec, no Canadá, deixando a maioria dos 360 trabalhadores desempregada e ameaçando transformar a cidade em uma cidade fantasma. A decisão da proprietária americana RYAM, anunciada no início de outubro, veio depois do fracasso das negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos e da imposição de tarifas de até 50% sobre produtos canadenses, segundo reportagem da BBC.
Para os moradores, não se trata apenas de mais um número na guerra comercial. É a sobrevivência de uma cidade inteira construída ao redor do moinho há mais de um século. E é também um alerta sobre o que acontece quando a economia se rende aos caprichos de um único mercado e de uma única empresa.
Uma cidade que vive da fábrica
Ao atravessar o rio Ottawa rumo a Témiscaming, a fábrica ocupa grande parte do horizonte. A cidade nasceu das florestas da região, repletas de pinheiros e bétulas, e sempre dependeu do moinho como principal empregador.
Agora, placas de 'Vende-se' se espalham pelos jardins das casas modestas de classe média. O valor dos imóveis despencou praticamente da noite para o dia, e há medo de que até profissionais essenciais, de operários de supermercado a médicos dos pequenos hospitais locais, deixem a cidade.
'Se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma. Não vai sobrar nada, absolutamente nada. É assustador', disse Ronnie Raymond, morador vindo de uma família de trabalhadores do moinho.
A maioria dos 360 funcionários sobrevive com o pagamento parcial garantido pelo programa de alívio tarifário do governo canadense. Para trabalhadora Nadine Suley, o fechamento significa a perda não apenas do sustento, mas de todo um modo de vida.
'Não é apenas um emprego. É a nossa casa', disse Suley, que classificou as tarifas americanas como 'um ataque pessoal'.
Por que o setor florestal ficou em segundo plano?
Em linhas gerais, a economia canadense resistiu à guerra comercial com os Estados Unidos, seu maior cliente. A taxa de desemprego nacional se manteve estável em torno de 6,5% desde a implementação das tarifas, segundo dados citados pela Terra, em paralelo a um crescimento moderado, porém consistente.
Mas uma análise mais detalhada revela focos de grande dificuldade nos setores diretamente atingidos pelas tarifas de até 50%, como aço, alumínio, automóveis e, no caso de Témiscaming, madeira, celulose e papel. A fábrica envia cerca de 75% de sua produção para os Estados Unidos.
'Se houvesse uma perda de 10% dos empregos em Toronto, Montreal, Quebec ou Vancouver, isso estaria em todos os noticiários e pressionaria muito os governos a tomarem alguma providência', disse Stéphane Lefebvre, funcionário e líder sindical.
A crise já provoca efeitos em cadeia no setor florestal da região, atingindo serrarias e empresas de transporte rodoviário. Um empreiteiro local demitiu 13 funcionários.
Os bilhões que sobraram para os outros setores
Enquanto Témiscaming luta para sobreviver, o primeiro-ministro Mark Carney e o premier de Ontário, Doug Ford, anunciaram na semana passada um pacote de quase C$ 9 bilhões (cerca de R$ 36 bilhões) para apoiar os setores siderúrgico e automobilístico da província. A ministra da Indústria, Mélanie Joly, ameaçou impor sanções financeiras à siderúrgica Stelco caso a empresa demitisse cerca de 500 funcionários.
Para Lefebvre e outros moradores, o setor florestal ficou em segundo plano nos esforços para salvar outras indústrias afetadas pelas tarifas. Em nota, um porta-voz da ministra Joly afirmou que o governo disponibilizou C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas, além de um programa de capital de giro para empresas afetadas.
O prefeito Alain Gauthier não culpa a RYAM pela decisão. Ele descreve as tarifas americanas como 'uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá' e cobra uma resposta firme do governo federal, com tarifas sobre produtos de papelão importados dos Estados Unidos, que hoje entram no Canadá sem cobrança.
'Sentimos que entramos em uma guerra armados com pistolinhas de água de criança para revidar', disse o prefeito.
Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois eleito por Témiscaming, disse à BBC estar 'muito preocupado e apreensivo' com a falta de ação do governo Carney para apoiar a cidade e o setor florestal de Quebec.
1973: quando os trabalhadores compraram a própria fábrica
A última vez que a cidade enfrentou uma ameaça tão grave foi em 1973, quando o então proprietário americano do moinho ameaçou fechá-lo. Trabalhadores e gestores locais se uniram, aceitaram um corte salarial de 10% e compraram a empresa coletivamente, transformando-a na Tembec, uma companhia internacional de propriedade quebequense.
Frank Dottori, hoje aposentado aos mais de 80 anos, era engenheiro na fábrica e teve papel fundamental na mobilização dos anos 1970. Ele lembra de ter sido 'educadamente colocado para fora' pelo então primeiro-ministro de Quebec quando foi pedir apoio pela primeira vez.
'O grupo local tem alguém assim? É muito improvável. Eles podem conseguir? Sim, se se organizarem', disse Dottori.
Agora, os trabalhadores mobilizam uma coalizão de moradores para recomprar a fábrica da RYAM, que a adquiriu em 2017. Em e-mail, a empresa afirmou que não comentaria a possibilidade de venda.
'Esperamos que o raio caia duas vezes no mesmo lugar', disse Lefebvre, na sede do sindicato.
Para ele, o feito só será possível com ajuda significativa de Carney e do governo de Quebec. Suley observa que o primeiro-ministro tem enfatizado a importância de 'comprar produtos locais' e apoiar trabalhadores canadenses. Apoiar a recompra da fábrica seria uma forma de cumprir a promessa.
O relógio corre contra Témiscaming
Muitos trabalhadores depositam esperanças nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, esperando que o resultado aumente a pressão sobre Trump, cujos índices de aprovação vêm caindo, para reduzir as tarifas. Na semana passada, algumas tarifas sobre produtos canadenses foram suspensas após articulação da senadora republicana pelo Maine, Susan Collins, que concorre à reeleição em novembro. As mudanças, porém, não contemplam os produtos fabricados em Témiscaming.
O prazo é apertado. Antes da chegada do inverno, as temperaturas abaixo de zero podem congelar os equipamentos da fábrica paralisada e provocar danos que tornariam ainda mais difícil sua reabertura.
Enquanto isso, Lefebvre mantém a determinação de devolver a fábrica aos moradores.
'Estamos no jogo 7 agora. Vamos jogar até o apito final', disse.
Perguntas frequentes
Por que a fábrica de Témiscaming foi fechada?
A RYAM, proprietária americana da unidade, decidiu mantê-la em 'paralisação por razões econômicas' por tempo indeterminado no início de outubro, após os Estados Unidos imporem tarifas de 50% sobre produtos de madeira e papel canadenses. A fábrica envia cerca de 75% de sua produção para o mercado americano.
Quantos trabalhadores foram afetados?
A maioria dos 360 funcionários da fábrica está desempregada e sobrevive com pagamento parcial do programa de alívio tarifário do governo canadense.
O que os moradores pretendem fazer?
Trabalhadores e lideranças mobilizam uma coalizão para recomprar a fábrica coletivamente, repetindo o feito de 1973, e cobram do governo Carney medidas de alívio tarifário e apoio financeiro.
