O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, admitiu neste sábado (31) que o Reino Unido pode apresentar um pedido formal de desculpas pelo tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, mas descartou qualquer pagamento de indenizações financeiras às nações afetadas. A declaração chega dias antes da cúpula da Commonwealth, em Antígua e Barbuda, onde a cobrança por reparações históricas será tema central entre líderes de países em grande parte formados por antigas colônias.
Segundo informações divulgadas pelo Brasil 247, com base em artigo de opinião assinado pelo próprio Burnham no jornal The Guardian, o premiê afirmou estar disposto a discutir o reconhecimento oficial da responsabilidade histórica do Estado britânico. A abertura, porém, tem um limite claro: nenhum dinheiro sairá dos cofres públicos para compensar os crimes do colonialismo.
Desculpas sim, dinheiro não
Em seu texto, Burnham reconheceu a gravidade dos crimes cometidos durante o período colonial, mas sustentou que a população britânica atual não pode ser responsabilizada financeiramente por atos praticados por gerações anteriores.
“Ouvir os apelos por um pedido formal de desculpas em nome do Estado britânico será uma parte importante deste processo, e estou aberto a eles”, escreveu o primeiro-ministro.
“Não creio que o povo britânico de hoje possa ser responsabilizado por erros históricos, por mais hediondos que sejam, que ocorreram numa época diferente, sob leis diferentes e nos quais não tiveram qualquer participação pessoal”, acrescentou.
A distinção entre reconhecimento moral e obrigação material é o cerne da disputa. O Observador reportou que Burnham rejeitou explicitamente a compensação financeira direta, afirmando que reparações “não são a solução” para os legados da escravidão. É a velha lógica de quem quer o gesto simbólico sem tocar na riqueza acumulada com o suor e o sangue de milhões de africanos e africanas.
Caribe responde: justiça reparatória segue de pé
As lideranças caribenhas não engoliram o recado. O primeiro-ministro de Antígua e Barbuda, Gaston Browne, anfitrião da cúpula, reagiu em publicação no Facebook reafirmando que a posição da região permanece intacta.
“A posição de longa data das Caraíbas sobre a justiça reparatória permanece inalterada”, declarou Browne.
Países caribenhos defendem que o reconhecimento dos crimes históricos venha acompanhado de medidas concretas: redução do endividamento externo, financiamento de políticas de desenvolvimento e investimentos em educação, saúde e adaptação às mudanças climáticas. Não se trata de pedir caridade, e sim de cobrar o que a história deve. Economias inteiras do Caribe foram construídas sobre o trabalho escravizado, e os efeitos dessa exploração seguem visíveis nos indicadores sociais da região até hoje.
A pressão também vem de dentro da monarquia. Como mostrou o O Globo, o rei Charles III iniciou nos últimos dias uma viagem pelo Caribe sob cobranças crescentes por desculpas oficiais e reparações, algo que Londres nunca ofereceu formalmente até agora.
Proposta britânica: renegociar dívidas no lugar de indenizar
Como alternativa às indenizações diretas, Burnham propôs o que chamou de “uma nova campanha em relação à dívida”, com iniciativas para ampliar prazos de pagamento e melhorar condições de juros cobrados de países economicamente vulneráveis.
A proposta tenta vincular o diálogo sobre o passado colonial a medidas econômicas do presente. Mas renegociar dívidas não é reparar. Para as lideranças caribenhas, tratar a questão como política de cooperação convencional significa recusar o debate sobre responsabilidade histórica, que envolve os efeitos econômicos e sociais duradouros da escravidão e do colonialismo.
A divergência tende a dominar a cúpula da Commonwealth, organização que reúne o Reino Unido e dezenas de países, muitos deles ex-colônias britânicas. Enquanto Londres prefere instrumentos de cooperação econômica, o Caribe insiste em formas específicas de justiça reparatória. O TRT Global destacou que o posicionamento de Burnham chega justamente na véspera do encontro, sinalizando que o governo britânico quer controlar o debate antes que ele estoure na mesa dos líderes.
3,2 milhões de africanos transportados em navios britânicos
A dimensão do crime não é abstrata. Segundo o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, aproximadamente 3,2 milhões de africanos foram transportados pelo Atlântico em embarcações britânicas ao longo do período de funcionamento do sistema escravista. A participação britânica foi uma das maiores entre as potências coloniais europeias.
Entre os séculos XV e XIX, milhões de pessoas foram arrancadas à força do continente africano e levadas principalmente para as Américas, onde foram submetidas ao trabalho escravizado na agricultura, no comércio e em outras formas de exploração. A escravidão teve papel central na acumulação de riqueza associada ao comércio atlântico, riqueza que financiou bancos, portos e a industrialização britânica.
É essa herança material que segue presente nas discussões internacionais sobre desigualdade, desenvolvimento e responsabilidade histórica. Um pedido de desculpas sem compromisso material corre o risco de virar protocolo diplomático: o gesto edulcorado que fecha o assunto sem devolver nada.
Perguntas frequentes
O Reino Unido vai pagar indenizações pela escravidão?
Não. Burnham descartou compensações financeiras diretas, embora admita um pedido formal de desculpas e proponha a renegociação das dívidas dos países vulneráveis.
O que os países caribenhos exigem?
Reconhecimento da responsabilidade histórica britânica acompanhado de medidas concretas, como redução do endividamento, financiamento ao desenvolvimento e investimentos em educação, saúde e adaptação climática.
Qual é a dimensão do tráfico britânico de escravizados?
Cerca de 3,2 milhões de africanos foram transportados em navios britânicos durante o período do tráfico transatlântico, segundo o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos.
Onde a questão será discutida?
Na cúpula da Commonwealth, prevista para a próxima semana em Antígua e Barbuda, que reúne o Reino Unido e dezenas de países, muitos deles antigas colônias britânicas.
