Turismo de selfie exclui povos e destrói paisagens
O modelo de turismo movido por redes sociais e listas de verificação está esgotando paisagens naturais, expulsando moradores locais e transformando a cultura em mercadoria. Enquanto destinos tentam conter a superlotação com medidas elitizantes, como aumento de preços, a ausência de políticas públicas para trabalhadores agrava o ciclo de consumo rápido da natureza e da história.
A privatização do paraíso e a exclusão social
Flamingos não são nativos de Aruba, mas isso não impede que multidões corram para a ilha para posar com eles. A Flamingo Beach, de propriedade privada, é artificialmente povoada pelas aves cor-de-rosa. Para entrar, você precisa se hospedar no Renaissance Wind Creek Resort ou conseguir um dos poucos passes diários de 125 dólares, que esgotam rápido.
A blogueira Shalyn Vukich foi a Aruba em novembro de 2020 para a foto icônica. Ela levou um maiô azul-oceano para combinar com as águas turquesa. Connie Cardy, profissional de marketing de Suffolk, no Reino Unido, levou roupas cor-de-rosa combinando para ela e as filhas antes de sua viagem em outubro de 2025.
Um flamingo me bicou várias vezes. Parecia um zoológico, ou talvez até pior.
Cardy descreveu o lugar como lotado e caótico. Um representante do resort afirma que o ambiente é mantido seguro e respeitoso sob orientação de veterinários locais. A realidade, no entanto, mostra como a busca pelo clique transforma espaços naturais em cenários artificiais e excludentes, acessíveis apenas a quem pode pagar o preço da entrada.
Capitalismo de plataformas e a falta de tempo dos trabalhadores
Essa tendência é agravada pelas redes sociais, pela indústria do turismo e também pelo tempo limitado de férias. Katy Rockett, diretora regional para a América do Norte da operadora Explore Worldwide, explica que os viajantes mais propensos a planejar com base em checklists são os americanos, para quem os dias de folga remunerada são um recurso escasso. Faz sentido que tentem encaixar o máximo possível.
Para Daniel Herszberg, doutorando em estudos sociojurídicos na Universidade de Oxford com foco em turismo, esse comportamento é quase tão antigo quanto o próprio turismo. Desde o Grand Tour no século 19, viagens vêm sendo vendidas com foco nos destaques. A diferença hoje é a escala e a pressão do capitalismo de plataformas. Quando o foco inteiro da viagem se resume a riscar um lugar da lista, a experiência se torna muito menos sobre curiosidade e exploração.
Os danos reais: de rochas vulcânicas a ecossistemas destruídos
Em certa escala, o turismo movido por fotos é prejudicial aos destinos e às comunidades locais. Na Capadócia, na Turquia, turistas insatisfeitos com as imagens feitas do alto invadem fazendas locais e pisoteiam rochas vulcânicas sensíveis para tirar selfies. O tráfego intenso causa rachaduras em monumentos próximos. Em agosto de 2025, a autoridade regional de turismo impôs regras mais rígidas, restringindo passeios de quadriciclo e a cavalo.
Na ilha grega de Santorini, pequenos negócios relatam ficar bloqueados por filas de visitantes esperando para tirar fotos do pôr do sol em um único ponto de cúpula branca. Na Islândia, depois que Justin Bieber mostrou o cânion Fjaðrárgljúfur em um videoclipe em 2015, o turismo no local aumentou cerca de 80% em três anos. O ecossistema foi tão danificado por caçadores de selfie que a Islândia teve de fechar a área em 2019 até construir trilhas adequadas.
Um grande volume de pessoas circulando rapidamente por um espaço desgasta paisagens e sítios históricos. O lixo aumenta e pressiona a infraestrutura além de limites sustentáveis.
As palavras são de Lisa Chen, CEO da ToursByLocals, plataforma que avalia e vende passeios conduzidos por guias independentes. A lógica do lucro rápido se sobrepõe à preservação.
A mercantilização da cultura e o direito à cidade
Em Petra, na Jordânia, o guia Mohammad Ayasrah relata que a maioria de seus clientes não concebe ir embora sem uma foto específica, tirada de um ponto periférico de onde se vê o Tesouro a cerca de 300 metros de altura. Muitos pagam 10 dólares a um beduíno para facilitar um caminho alternativo e pular a caminhada de duas horas. A cultura local é reduzida a um cenário de aluguel.
Nos cantos mais remotos da Terra, a lógica se repete. Tudor Morgan, líder de expedição da HX Expeditions, testemunha viajantes que veem a Antártida como o item máximo a ser riscado da lista. Alguns pulam palestras com climatologistas e especialistas em vida selvagem para priorizar a selfie perfeita diante de uma colônia de pinguins.
Em busca de soluções: quem paga a conta da superlotação?
Os governos tentam conter o turismo de checklist, mas frequentemente adotam medidas que penalizam os mais pobres. No Egito, em abril de 2025, o governo reformulou a experiência nas Grandes Pirâmides de Gizé. Para responder a preocupações com sustentabilidade e crueldade animal, o estado elevou os preços de entrada para visitantes internacionais em até 50%, proibiu veículos particulares e vetou a maioria dos vendedores ambulantes, substituindo-os por ônibus elétricos. A medida beneficia o controle ambiental, mas ataca o trabalhador informal e elitiza o acesso ao patrimônio histórico.
Os museus também buscam saídas. Quando Cecilie Hollberg assumiu a direção da Galleria dell'Accademia, em Florença, na Itália, em 2020, ela quis aprofundar a forma como os visitantes se relacionam com o Davi, de Michelangelo. Mais de 3 milhões de pessoas visitam o museu anualmente. Hollberg combateu a mercantilização da obra, que havia levado lojas de lembranças pornográficas do Davi a tomarem o centro histórico, para frustração dos 366 mil habitantes da cidade.
Para incentivar os visitantes a permanecer depois da selfie, ela ampliou os horários, limitou grupos turísticos e convidou florentinos para eventos comunitários gratuitos. Modernizou os sistemas de iluminação para destacar detalhes menores da escultura. Quando a visitação alcançou o recorde de 2 milhões de pessoas em 2023, as multidões pareceram mais leves, e mais gente podia ser vista apreciando a arte adequadamente. A iniciativa de democratizar o espaço para a população local serve de modelo.
Bevin Savage Yamazaki, que trabalha com projetos culturais e museológicos na empresa de design Gensler, notou as mudanças em sua viagem em família em 2025.
Em vez de sermos arrastados por uma multidão densa, conseguimos desacelerar juntos, realmente absorver a sala, a luz, as proporções, antes de chegar à própria escultura. Você se sente menos como alguém consumindo um ícone e mais como alguém em conversa com uma obra-prima.
Já na França, a solução encontrada pelo presidente Emmanuel Macron para a superlotação em frente à Mona Lisa, no Louvre, segue a lógica oposta. Até 2031, a obra terá sua própria sala. A mudança ajudará a administrar o aumento da visitação, mas haverá um agravante: será preciso pagar a mais pelo privilégio. Em vez de democratizar o acesso ou limitar a entrada de grupos comerciais, o Estado francês escolheu transformar o patrimônio público em um produto de luxo para quem pode pagar pela selfie.
O que é o turismo de checklist?
É um modelo de viagem focado em visitar locais apenas para tirar fotos para redes sociais e marcar presença, sem se conectar com a cultura, a história ou a comunidade local.
Como a falta de férias remuneradas afeta o turismo?
Trabalhadores com poucos dias de folga, como os americanos, são forçados a fazer roteiros apressados para encaixar o máximo de atrações no menor tempo possível, alimentando o turismo de consumo rápido.
Quais destinos estão sofrendo com o overtourism?
Destinos como Santorini na Grécia, Capadócia na Turquia, as Pirâmides de Gizé no Egito, Petra na Jordânia e o cânion Fjaðrárgljúfur na Islândia sofrem com degradação ambiental, superlotação e expulsão de moradores locais.