Fóssil de vômito revela nova espécie de pterossauro no Ceará
Uma descoberta que parece saída de um filme de ficção científica está revolucionando a paleontologia brasileira. Pesquisadores das universidades UFRN, URCA e USP encontraram uma nova espécie de pterossauro através de um fóssil de vômito de 110 milhões de anos, guardado há décadas no Museu Câmara Cascudo, em Natal.
O achado, publicado na revista Scientific Reports, marca o primeiro réptil voador filtrador já identificado nos trópicos e representa um marco para a ciência nacional. O material estava catalogado simplesmente como "peixe indeterminado", mas revelou algo muito mais extraordinário quando reexaminado pelos cientistas brasileiros.
Do abandono à glória científica
Por décadas, esse tesouro científico permaneceu esquecido nos arquivos do museu potiguar. A história deste fóssil espelha a realidade de tantas instituições públicas brasileiras: recursos limitados, acervos subutilizados, mas com potencial imenso para transformar nossa compreensão do mundo.
"É como ganhar na mega-sena da paleontologia, o tipo de achado que acontece uma vez na vida", celebrou a paleontóloga Aline Ghilardi, da UFRN, uma das autoras do estudo. Sua alegria reflete não apenas a importância científica, mas também o reconhecimento do trabalho árduo dos pesquisadores brasileiros.
Bakiribu waridza: um nome que honra nossas raízes
A nova espécie foi batizada de Bakiribu waridza, combinando palavras do povo indígena Kariri. "Bakiribú" significa pente e "waridzá" quer dizer boca, em referência à dentição única do animal. Essa escolha representa muito mais que nomenclatura científica: é um ato de resistência e valorização dos povos originários, frequentemente invisibilizados na ciência tradicional.
O pterossauro possuía entre 440 e 560 dentes distribuídos em suas mandíbulas alongadas, com densidade de 17,6 dentes por centímetro. Essa estrutura altamente especializada permitia que o animal filtrasse pequenos organismos da água, como fazem hoje as baleias e flamingos.
Uma janela para o passado tropical
O fóssil foi descoberto na Formação Romualdo, na Bacia do Araripe, no Ceará. Esta região, hoje semiárida, era há 110 milhões de anos um ambiente tropical exuberante, com lagos e rios repletos de vida. A descoberta nos lembra que as mudanças climáticas não são fenômeno novo, mas que hoje enfrentamos transformações em velocidade sem precedentes.
O que torna esta descoberta ainda mais especial é sua preservação em uma regurgitalite, nome científico para vômito fossilizado. Os restos do pterossauro estavam misturados a fragmentos de quatro peixes, todos organizados como se tivessem sido engolidos e expelidos juntos por um grande predador, possivelmente um dinossauro espinossaurídeo.
Ciência pública em ação
Esta descoberta é fruto do trabalho de universidades públicas brasileiras, instituições que resistem aos ataques constantes de governos neoliberais. A UFRN, URCA e USP, mesmo com recursos limitados, continuam produzindo ciência de ponta reconhecida mundialmente.
O estudo revela não apenas uma nova espécie, mas reconstrói toda uma cadeia alimentar do Cretáceo. É um registro direto e quase cinematográfico do cotidiano da vida pré-histórica no Nordeste brasileiro, mostrando que nossa região sempre foi berço de biodiversidade extraordinária.
A descoberta do Bakiribu waridza preenche lacunas evolutivas importantes e demonstra como os pterossauros se adaptaram a diferentes ambientes aquáticos ao longo do tempo. Mais que isso, reafirma o papel fundamental da ciência pública brasileira na construção do conhecimento mundial.
Em tempos de negacionismo científico e cortes no financiamento da pesquisa, descobertas como esta nos lembram por que devemos defender nossas universidades e museus. Eles guardam não apenas fósseis, mas o futuro da ciência brasileira.