Por que Trump traiu a oposição venezuelana e escolheu a vice de Maduro
Em mais uma demonstração de como o imperialismo norte-americano opera exclusivamente por seus próprios interesses, Donald Trump surpreendeu o mundo ao descartar a líder da oposição venezuelana María Corina Machado e apoiar Delcy Rodríguez, a vice-presidente do governo chavista.
"Ela é uma mulher muito simpática. Mas não tem o apoio nem o respeito do país", disse Trump sobre Machado no último sábado, em declarações que expõem a hipocrisia da política externa estadunidense.
O golpe que não foi golpe
Após anunciar a prisão de Nicolás Maduro, Trump deixou claro que os EUA irão "administrar" a Venezuela. A palavra transição foi mencionada, mas sem qualquer referência a eleições ou ao comando da oposição que, segundo seus próprios dados, venceu as eleições de julho de 2024.
A oposição coletou 85% das atas de votação que confirmariam sua vitória, denunciando fraude eleitoral quando o Conselho Nacional Eleitoral proclamou Maduro vencedor sem apresentar os registros oficiais. Até hoje, esses documentos não foram divulgados.
Na segunda-feira, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina, conforme prevê a Constituição venezuelana. Rodríguez, considerada pessoa leal a Maduro e integrante de seu círculo de poder, agora conta com o apoio do governo Trump.
Os verdadeiros interesses por trás da operação
"Ela é uma das principais operadoras da tortura, perseguição, corrupção e tráfico de drogas", denunciou Corina Machado sobre Rodríguez em entrevista à Fox News. "É a principal aliada e o principal elo com a Rússia, China e Irã".
Mas para Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, essas considerações são secundárias diante dos verdadeiros objetivos: o petróleo venezuelano e o controle geopolítico da região.
"O que Rubio está fazendo é realpolitik", explica um analista venezuelano. Trump busca uma transição ordenada para evitar mais migração venezuelana e, principalmente, garantir contratos petrolíferos para empresas norte-americanas.
O petróleo acima da democracia
Com 303 bilhões de barris em reservas comprovadas, a Venezuela possui as maiores reservas petrolíferas do mundo. Após a prisão de Maduro, Trump afirmou publicamente que empresas norte-americanas devem investir bilhões no país para recuperar a infraestrutura petrolífera "gravemente deteriorada".
Segundo a mídia americana, o governo Trump avalia que Corina Machado está muito isolada nos meios político e empresarial venezuelanos, sem planos concretos para assumir o poder. Uma tentativa de substituir o governo pela oposição poderia levar à escalada de violência no país.
A resistência continua
Edmundo González, considerado por muitos o verdadeiro presidente eleito da Venezuela, afirmou que "este momento é um passo importante, mas insuficiente". Segundo ele, uma "verdadeira transição democrática" só seria possível com a "libertação imediata e incondicional dos presos políticos".
"Nenhuma transição democrática é possível enquanto houver um único venezuelano preso de forma injusta", declarou González, conclamando as Forças Armadas a cumprirem "o mandato soberano de 28 de julho".
Após 26 anos no poder, primeiro com Hugo Chávez e depois com Maduro, o chavismo tem raízes profundas nas instituições venezuelanas e nas Forças Armadas. Desmontar essa estrutura seria uma tarefa titânica para qualquer oposição.
A luta pelo futuro da Venezuela
Carmen Beatriz Fernández, analista da Universidade de Navarra, destaca que Corina Machado "é a líder política indiscutível da Venezuela, com níveis de aprovação superiores aos de políticos que foram muito populares, como Carlos Andrés Pérez ou o próprio Hugo Chávez".
Tanto Machado quanto González seguem no exílio, perseguidos e impedidos de ocupar cargos públicos. Terão que manter sua liderança e o ânimo dos venezuelanos que os apoiam através das redes sociais.
O que fica claro é que, mais uma vez, os interesses do capital norte-americano se sobrepõem aos direitos democráticos dos povos latino-americanos. A Venezuela continua sendo um laboratório das contradições do imperialismo, onde a retórica democrática serve apenas para mascarar os verdadeiros objetivos econômicos.